Com cinco funcionários, consultoria de Palocci tinha contratos milionários, aponta PF

Com cinco funcionários, consultoria de Palocci tinha contratos milionários, aponta PF

Empresa do ex-ministro teve R$ 30 milhões bloqueados pela Lava Jato, mas investigadores identificaram que ela mantinha, em 2016, apenas cinco funcionários

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fábio Serapião, enviado especial a Curitiba

26 Outubro 2016 | 14h43

Antonio Palocci. Foto: Werther Santana/Estadão

Antonio Palocci. Foto: Werther Santana/Estadão

Nas buscas realizada na Projeto, empresa de consultoria do ex-ministro Antonio Palocci,  a Lava Jato encontrou 44 contratos de consultorias milionários com grandes empresas que atuam nos mais variados setores no País. Chamou a atenção da Polícia Federal, contudo, o fato de que a empresa do ex-ministro registrou, nos últimos anos, uma folha de pagamento que tinha oito funcionários em 2013 e chegou a cinco em 2016.

Neste ano, a Projeto, que teve R$ 30 milhões em suas contas bloqueados e foi alvo de buscas da Operação Omertà – 35ª fase da Lava Jato que prendeu Palocci, mantinha em seu quadro de funcionários apenas um administrador, com salário de R$ 8,3 mil, uma assistente administrativa, com salário de R$ 7,1 mil, uma funcionária autônoma, com salário de R$ 3 mil e dois motoristas, um com salário de R$ 4,6 mil e outro de 3,2 mil. Além destes, constam como sócios da empresa Antonio Palocci e seu sobrinho André Palocci, ambos com salários de R$ 3 mil.

AS CONSULTORIAS DE PALOCCI:
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A Polícia Federal investiga a empresa de consultoria por suspeita de que ela teria sido utilizada para lavar dinheiro de propina da Odebrecht para o ex-ministro e até para o PT e campanhas políticas. Segundo a Lava Jato, Palocci atuava como um intermediador dos interesses da empreiteira no governo federal e teria recebido R$ 128 milhões do “departamento de propinas” da empreiteira, destinados não só a ele, mas também ao PT e até para o custeio de campanhas políticas do partido.

Nas buscas na sede da empresa, contudo, a PF não encontrou nenhum contrato de consultoria com a Odebrecht ou outras empresas do Grupo. Chamou a atenção dos investigadores, porém, além do quadro reduzido de funcionários, o fato de a Projeto ter feitos contratos de consultoria com empresas dos mais variados ramos – da indústria alimentícia a uma empresa de assistência médica e bancos – e de não terem sido localizados comprovantes da prestação de serviços de todos estes contratos.

“Não se verificou a presença de documentos que indiquem a prestação dos serviços constantes dos contratos arrecadados na empresa Projeto Consultoria”, assinala o escrivão da PF João Paulo de Alcântara, responsável pelo relatório das buscas na sede da empresa. Ele, contudo, faz a ressalva de que foi encontrado um caderno de anotações com 15 páginas referentes à consultoria realizada para a Amil.

Além disso, em nenhum momento a PF aponta que estes contratos seriam irregulares ou utilizados para a lavagem de dinheiro.

Não é a primeira vez que a Lava Jato se depara com uma empresa de consultoria sob suspeita de ser utilizada para lavagem de dinheiro. O também ex-ministro do governo Lula José Dirceu foi condenado pelo juiz Sérgio Moro a 20 anos e três meses de prisão por corrupção, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Segundo a Lava Jato, Dirceu teria utilizado alguns contratos de sua empresa de consultoria, a JD Assessoria, para lavar dinheiro e receber propina do esquema de corrupção na Petrobrás.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA JOSÉ ROBERTO BATOCHIO, QUE DEFENDE ANTONIO PALOCCI:

O advogado José Roberto Batochio, que defende o ex-ministro Antonio Palocci, reagiu com indignação às suspeitas lançadas pela Polícia Federal sobre as atividades do ex-ministro e sua empresa Projeto Consultoria.

“É preciso deixar claro de uma vez por todas que esse tipo de prestação de serviços tem caráter pessoal, pelo nome, prestígio e pela capacidade profissional”, disse Batochio, referindo-se ao ex-ministro que ocupou duas Pastas importantes nos governos Lula e Dilma, Fazenda e Casa Civil.

O veterano criminalista faz comparações. “Veja o caso do doutor Ivo Pitangui, o maior cirurgião plástico de todos os tempos. Ele operava sozinho. O doutor Adib Jatene também, o maior cirurgião cardíaco das Américas, operava sozinho, no máximo com um ou dois assistentes. Quer dizer que a remuneração que eles recebiam por seus trabalhos altamente especializados poderia ser considerada incompatível?”
Para Batochio, ‘existe um movimento muito claro’.

“Os investigadores querem fazer uma arbitrariedade e não têm como, aí divulgam falsas notícias ou suspeitas infundadas. Eu quero denunciar isso. Setores da imprensa estão sendo instrumentalizados por esses acusadores que planejam desencadear atos arbitrários e querem ter o apoio da opinião pública que fica impressionada com essas notícias dadas a conta-gotas e com o claro propósito de servir de linha auxiliar da acusação.”

José Roberto Batochio é enfático. “É absolutamente inquestionável que todos esses contratos (da Projeto Consultoria) com empresas privadas que não têm nenhuma relação com o governo foram executados. Por serviços efetivos as empresas pagaram. Tudo dentro da legalidade e da normalidade e oferecida à tributação.”

“Os investigadores estranham que eram poucos funcionários na Projeto? Eu reitero: Ivo Pitangui operava sozinho. Será que os honorários que ele recebeu eram incompatíveis com as atividades porque sua equipe era restrita? Seria acaso admissível questionar esse desempenho que tanto orgulho científico trouxe ao Brasil?”

O criminalista faz uma ironia. “Se assim for esses acusadores deixaram de ser apenas liberticidas, aqueles que matam a liberdade, mas agora também são talentocidas, ou seja, querem matar os talentos.”
“O sucesso foi criminalizado. O talento virou crime. A capacidade colocada sob suspeita, quando bem remunerada”, protesta Batochio.

Na avaliação do advogado, os investigadores da Lava Jato ‘estão criando a ‘República dos Holerites’ em que só é legítimo e fora de suspeita a remuneração que se realiza através deles’.

“Já não fosse suficiente a deformação de haverem transformado nosso País numa imensa delatolândia”, acrescentou, em referência à sucessão de delações premiadas que marcam a Lava Jato.

O criminalista disse, ainda. “Eu quero fazer mais uma denúncia. Chegou ao meu conhecimento que investigadores brasileiros estão autorizando delatores brasileiros a municiarem autoridades americanas que querem cobrar somas bilionárias do Brasil através de ações penais e de indenização contra a Petrobrás e contra o governo brasileiro.”

Segundo ele, ‘quatro ou cinco delatores que estavam com os passaportes apreendidos teriam se deslocado aos Estados Unidos para servir de testemunhas em favor dos americanos contra o Brasil. Isso é uma coisa a ser investigada por quem é brasileiro e tem algum sentimento de patriotismo. Não se admite conspiração contra o nosso Brasil. É algo a ser verificado.”