Com licença, eu vou ao mercado

Com licença, eu vou ao mercado

Rosangela Wolff Moro*

04 de abril de 2017 | 05h15

Rosangela Moro. Foto: ALEX SILVA/ESTADÃO

Rosangela Moro. Foto: ALEX SILVA/ESTADÃO

Depois de tanto falatório sobre as repercussões do Dia Internacional da Mulher não resisti ao convite para escrever um texto a respeito.

Semana passada, antes de ir ao trabalho resolvi dar uma paradinha no supermercado e ver com meus próprios olhos quem estava por lá. Sexta feira, oito e trinta da manhã. Com quem eu me deparo? Com pessoas. Homens, mulheres, crianças, idosos, idosas, famílias, tem pra todo mundo, afinal todo mundo come e não tem nada de errado ir ao mercado, seja você CEO de uma empresa ou uma dona de casa.

A discussão é outra. A discussão é que não há mais espaço para catalogar atividades como femininas ou masculinas.

Em uma de minhas voltas de Brasília me chamou a atenção o comunicado da cabine de comando. Voz de mulher. Faltou macho naquele voo, adepto da frase ‘mulher no volante, perigo constante’, revelar-se. E foi um pouso perfeito. Não fosse minha timidez, teria ido cumprimentar a comandante e também a companhia aérea. Competência e mérito não são uma questão de gênero.

Eu cresci achando que meu pai queria ter tido filho homem e que a natureza tinha contrariado o desejo dele. Eu achava isso porque nem eu nem minha irmã éramos poupadas de atividades de cortar a grama do jardim, de trocar o pneu do carro e de acompanhá-lo nas rodadas de chimarrão masculinas.

Aliás, em casa, saber trocar o pneu era requisito para poder sair de carro. E, para que o procedimento não fosse esquecido, de tempos em tempos o pneu aparecia furado. Sim, era meu pai, à maneira dele, pondo à prova a nossa capacidade de não sermos frágeis.

Passados os anos eu compreendi. Ele não queria filho homem, ele queria que fossemos independentes. E assim me tornei. Mas, claro, levava sempre no carro uma luva de borracha para não estragar as unhas esmaltadas, acaso tivesse que trocar o pneu.

Não somos frágeis. Falta aprendermos que a maior independência que uma mulher pode ter é de realizar as suas próprias escolhas sob uma única influência: a da sua própria vontade. É sempre mais fácil culpar o marido, o namorado, ou namorada, os filhos, o chefe ou o trabalho, porque se algo der errado, há alguém a quem atribuir a culpa pelo insucesso.

Se admitirmos que a escolha é nossa, somente nossa, assumimos a consequência. Não deu? Tenta de novo, tenta de outra maneira, mas não desista.

Não admita nenhuma forma de violência. A frase que mais amo é da Alice Walker: “Não pode ser seu amigo quem exige o seu silêncio ou atrapalha o seu crescimento”. Amizade ou amor constroem, não destroem. A violência física contra a mulher é preocupante e os números são alarmantes. Nada justifica a violência contra quem quer que seja.

Preocupa-me ainda mais a violência psicológica. Um roxo no olho é difícil esconder e essa visibilidade pode ser a força motivadora para a busca de ajuda. Mas o roxo da alma não. Esse hematoma na alma não deixa sinais visíveis e tem enorme poder de destruição. Destrói sonhos, destrói projetos, mata. E….. e você não tem que fazer greve de sexo, ao menos que você mesma queira. Você faz se você quiser e não faz se você não quiser. Ponto. Não pode ter outra regra. Não deixe ninguém dominar a sua vida, assuma o comando.

Agora, com sua licença, eu vou ao mercado, porque amanhã eu quero laranja no café da manhã.

*Rosangela Wolff Moro é advogada

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