Com enfrentar o bullying nas escolas

Com enfrentar o bullying nas escolas

Clarice Maria de Jesus D’Urso*

25 de abril de 2021 | 06h30

Clarice Maria de Jesus D’Urso. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Pode-se definir bullying como a conduta ofensiva, sequencial e intimidatória, de um agressor para uma vítima, dentro do ambiente escolar. A amplitude de tal prática, nos estabelecimentos de ensino, levou-a a ser classificada como problema de saúde pública, sobretudo por conta da interferência na vida das vítimas, ligada a danos psicológicos e dificuldade de aprendizagem e desempenho escolar, a curto e a médio prazo, levando, muitas vezes, à evasão letiva.  De acordo com o Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), o Brasil ocupa o quarto lugar entre os países onde o bullying é mais frequente.

A Lei Antibullying (13.185/15), que estabelece o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, conceitua a prática como “todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorrem sem motivação evidente, praticado por individuo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima”, numa ampliação, com maiores detalhes, da definição que inicia este artigo.

O bullying é registrado inicialmente na década de 1980 na Noruega, resultando no suicídio de 3 crianças por conta de maus-tratos que sofreram dos colegas na escola. Esse drama terrível levou as autoridades daquele país a levantar dados sobre o episódio, quando se constatou que um em cada sete alunos está envolvido com o bullying. Também nessa década, no Reino Unido, os educadores detectaram o problema e, anos depois, em 1998 foi criada a Lei de Padrões Estrutura Escolares, que obriga a adoção de medidas preventivas nos estabelecimentos de ensino.

Atualmente, já foram identificados diferentes tipos de bullying, o artigo 3º da Lei Antibullying os aponta: verbal (insultar, xingar e apelidar pejorativamente), moral (difamar, caluniar, disseminar rumores), sexual (assediar, induzir e/ou abusar), social (ignorar, isolar e excluir), psicológico (perseguir, amedrontar, aterrorizar, intimidar, dominar, manipular, chantagear e infernizar), físico (socar, chutar, bater), material (furtar, roubar, destruir pertence de outrem) e virtual; este, particularmente, chamado de cyberbullying e, por conta das possibilidades de anonimização da internet, de mais complexa identificação.

Algumas das práticas mais comuns consistem em criar boatos humilhantes, apelidos vexatórios, captar e distorcer imagens das vítimas na internet ou aplicativos de mensagens rápidas, enviar mensagens ameaçadoras, excluir de atividades sociais. Embora, comumente, a figura do agressor seja centrada em apenas uma pessoa, deve ser levada em consideração, também, a plateia: alunos que assistem às agressões e, muitas vezes, incomodam-se com isso, mas não reagem por timidez ou, mormente, medo de represálias.

Portanto, nessa briga de “crianças” todo mundo deve colocar a colher, intervir, não pode ser prática entendida como simples brincadeira. Tanto docentes quanto a direção da escola e as famílias da vítima e do agressor fazem parte de uma cadeia nefasta, cujos elos precisam romper-se. É um problema antigo, que ganhou projeção com a conscientização de que são inaceitáveis práticas de intimidação e discriminação no ambiente escolar. Muitas vezes a intimidação chega à agressão física, com empurrões, pontapés, tapas etc.

O Brasil é um dos países mais conectados do mundo, com média de 1 celular por habitante (234 milhões de aparelhos); os jovens utilizam o ambiente virtual para “atacar” suas vítimas, até porque permite o uso de perfis falsos, portanto de um suposto anonimato, que torna as mensagens ainda mais hostis e violentas contra os colegas, humilhando suas “vítimas” por achar que não sofrerão qualquer tipo de punição.

O assunto é tão relevante que mereceu pesquisa realizada pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre saúde dos estudantes brasileiros, com a escuta de 2 milhões de alunos. A PENSE (Pesquisa Nacional de Saúde Escolar) registrou que quase a metade dos estudantes (46,6%) já sofreu algum tipo de bullying na escola e que tal conduta é sistemática.

As questões que levam ao bullying, de acordo com a pesquisa, estão ligadas à aparência física (obeso, se tem espinhas no rosto, busto grande, cabelo crespo), étnico-racial (negro, asiático, de outras ascendências), orientação sexual (LGBTQIA+), religião e local de origem (se a escola é na capital e o aluno é do interior), demonstrando que os jovens ainda têm dificuldade de respeitar as diferenças, são pouco inclusivos e não possuem empatia com a diversidade.

As escolas precisam preparar-se para uma atuação consistente, no sentido de prevenção ou coibição do bullying, por meio de um trabalho de conscientização dos alunos, posto tratar-se de prática antiética, imoral e passível de punição com base nas leis do país. Palestras e campanhas pode ser bons instrumentos nesse sentido de prevenção.  As escolas também devem abrir canal de comunicação para que os alunos que estejam sofrem bullying possam procurar um professor ou a direção da escola para expor a questão e pedir intervenção para que a intimidação cesse, com a garantia absoluta de sigilo.

Além de acolher o estudante vítima de bullying, também é necessário ficar atento ao agressor, o que há por trás de suas emoções. Geralmente são crianças ou adolescentes de famílias desestabilizadas, alunos com aproveitamento baixo, que também precisam de apoio para que possam entender seus atos, no sentido de buscar cultivar uma relação mais empática e respeitosa com os colegas, sem que, no entanto, deixem de ser responsabilizados por seus atos, para que fique claro que esse tipo de prática é inaceitável. Também não podemos esquecer que as testemunhas de práticas de bullying também sofrem porque não conseguem impedir a agressão e acabam se sentindo cumplices do agressor, o que poderá interferir no aproveitamento escolar de diversos jovens.

Além da prevenção, o tempo pode ser fundamental para detectar o bullying e agir contra ele nas escolas. Muitas vezes, as crianças ou os adolescentes vítimas de bullying silenciam sobre a agressão e evitam levar o problema para a família ou para o colégio, por isso a contínua observação comportamental é importante: além de baixa autoestima, mudança de comportamento e traumas de ordem vária, alguns adolescentes podem tentar o suicídio como saída desesperada.

O bullying é um fenômeno complexo para todos os envolvidos, com capilaridade global, pois não conhece limitações econômicas ou sociais, estando presente em escolas públicas e privadas ao redor do mundo. Nos anos 2000, estimava-se que a média mundial de estudantes envolvidos em bullying flutuava de 7% a 24%; menos de uma década depois, chegou a 35%. As Nações Unidas realizaram uma pesquisa entre estudantes europeus e apuraram que um terço deles estiveram envolvidos com práticas de bullying, enquanto vítima ou agressor. Outro estudo realizado em 50 estados, nos EUA, relevou que 20,1% dos estudantes foram vítimas de bullying.

Os estudos apontam que alguns grupos se tornam alvos preferido de atos discriminatórios e violentos por algum atributo que os distingue dos demais, com hostilidades abusivas e humilhações dos agressores contra as vítimas, que, por sua vez, são tomadas por sentimentos de medo e incapacidade de reação imediata. Já os agressores, geralmente, escondem em atos de agressividade a fragilidade que vivenciam, provavelmente, em seus ambientes familiares.

A capacitação dos professores, coordenadores e funcionários da escola é fundamental para que, quando necessário, possam assumir o papel de mediadores de conflitos entre agressores e vítimas, com o objetivo de promover o entendimento e o respeito entre todos.

Sabe-se que, em horários de intervalo, a prática do bullying com maior frequência, e, portanto, é um momento que necessita de maior supervisão, sem que, os alunos se sintam abertamente vigiados e/ou inibidos: a prevenção ao bullying não pode soar como ameaça à liberdade dos jovens, a menos que se detectem comportamentos abusivos.

Os estudantes também devem passar por atividades de conscientização e sensibilização para que possam, também, ajudar a identificar situações de bullying e adotem uma atitude mais proativa. Podem ser empregados, para essa dinâmica, dramatização ou exibição de vídeos em que se levantem temáticas relacionadas ao bullying, como brigas, raiva, xingamento, intolerância etc.

A atividade vai ajudar a definir o papel de cada estudante nas situações de bullying, com a leitura de um episódio para que todos os alunos da sala, divididos em grupos, possam, em grupos intercambiáveis, conhecerem todos os “papéis” ligados à prática de agressões. É importante, também, que partam dos estudantes propostas de prevenção e punições que considerem justas para cada caso analisado.

As vítimas de bullying, embora silentes na escola, buscam maior apoio familiar sobre os conflitos ocorridos, por isso se torna ainda mais importante a participação dos responsáveis em qualquer programa de prevenção ao bullying; como dissemos anteriormente, deve haver canais abertos à manifestação de todos os envolvidos, direta ou indiretamente.

Além da lei – evidentemente importante por seu substrato formal – é indispensável que se capilarizem medidas e propostas de combate ao bullying, nas esferas de prevenção, conscientização e minimização de ocorrências. O país precisa ampliar, nas áreas da Educação e da Saúde, por meio de consistentes políticas de fomento, estudos sobre esse fenômeno que vem tirando o sono de estudantes, pais, docentes e autoridades.

*Clarice Maria de Jesus D’Urso, membro da Associação Brasileira das Mulheres de Carreiras Jurídicas e conselheira do Conselho Estadual da Condição Feminina da Secretaria da Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo. Membro titular do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Erradicação ao Trabalho Escravo da Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo. Coordenadora de Ação Social da OAB/SP por duas gestões, diretora do São Paulo Woman’s Club – Clube Paulistano de Senhoras, membro do Comitê Estadual de Vigilância a Morte Materna, Infantil e Fetal da Secretaria da Saúde do Estado. Autora de cartilhas e artigos

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