Com apoio de prefeitura, garimpeiros combinam fechamento de cidade no Pará contra ação policial; ouça áudios

Com apoio de prefeitura, garimpeiros combinam fechamento de cidade no Pará contra ação policial; ouça áudios

Estadão teve acesso a conversas trocadas com o vice-prefeito de Jacareacanga, Valmar Kaba (Republicanos)

André Borges/BRASÍLIA

25 de maio de 2021 | 22h05

Prefeitura de Jacareacanga, no Pará. Foto: Reprodução/Câmara Municipal

As ações policiais realizadas nesta terça-feira, 25, contra o garimpo ilegal que toma conta da região de Jacareacanga, no Pará, levaram os garimpeiros a se mobilizarem para fechar todo o comércio da região, contando, inclusive, com apoio da própria prefeitura da cidade.

O Estadão teve acesso a conversas trocadas entre garimpeiros e o vice-prefeito de Jacareacanga, Valmar Kaba (Republicanos). Nas mensagens, eles combinam ações para fechar supermercados e todo o comércio da cidade nesta quarta-feira, 26, além de se encaminharem até o aeroporto da cidade, em protesto contra as ações.

“Agora é que é o momento. É combinar tudo. Esses restaurantes, comerciantes… Fechar tudo. Eles não vão aguentar sem comer. A articulação é essa daí, comerciante, mototáxi, barqueiro. Agora é que é a hora do movimento, entendeu”, diz uma das pessoas.

Em uma resposta enviada ao vice-prefeito comerciante, outra pessoa diz. “Eu topo isso, Valmar. Se o pessoal concordar, chegou a hora de nós fazermos o movimento agora. Cade os guerreiros, que vão para o movimento? Cadê os chefes dos guerreiros, também? Tem que se unir. Comigo não tem frescura, não, Valmar. Eu não tenho medo, eu topo mesmo. Chegou a hora de nós fazermos isso. Nós temos que fechar os comércios todos. Temos que nós unir para ir pra lar pro aeroporto.”

Ouça áudios sobre ações para fechar a cidade

A operação que reúne Polícia Federal, Ibama e a Força Nacional de Segurança, centenas de agentes apoiados por helicópteros e dezenas de picapes fizeram uma série de incursões nos principais garimpos ilegais da região, que atuam no Rio Tapajós e dentro da terra indígena Munduruku, onde vivem cerca de 14 mil indígenas.

As informações sobre a operação vazaram e chegaram antes aos garimpeiros. Em documento ao qual a reportagem teve acesso, a PF informa que seria feito o trabalho “em um raio de 200 km contados como epicentro a cidade de Jacareacanga (PA)”. As ações estão previstas para ocorrerem entre 23 de maio e 10 de junho, em diversas unidades de conservação da região, além de terras indígenas.

Mensagens trocadas entre os garimpeiros nesta terça-feira, 25, procuravam espalhar a informação sobre os locais das operações. A maior preocupação é esconder equipamentos ou retirá-los a tempo, antes que os agentes cheguem e destruam o material. A destruição de máquinas é uma ação prevista em lei e, inclusive, recomendável em uma série de situações. Muitas vezes, o descolamento dos equipamentos oferece risco aos agentes, que podem ser alvos de emboscada durante a mobilização. Paralelamente, a queima dos bens impossibilita a sua retomada e reutilização pelos criminosos. O presidente Jair Bolsonaro já se posicionou, em diversas ocasiões, contra a queima dos equipamentos.

Nas ações criminosas, os garimpeiros costumam levar, para dentro da floresta, retroescavadeiras de grande porte, conhecidas como “PCs”. Trata-se de máquinas caras, que custam, facilmente, cerca de R$ 500 mil.

Garimpo em terra indígena é crime, bem como qualquer outra atividade de fora que tenha impacto direto no território. Como a maior parte das áreas externas às terras indígenas já foi explorada, garimpeiros e madeireiros concentram suas ações dentro das terras demarcadas.

Aliciamento. No dia 14 de abril, garimpeiros da região chegaram a bloquear a passagem de quem seguia pela BR-230, a Rodovia Transamazônica, que corta o município. As investigações apontam que os garimpeiros têm aliciado um pequeno grupo de indígenas, que libera o acesso às terras indígenas ao receberem um pequeno valor.

Não se trata de uma situação nova. Entre 2018 e 2020, diversas retroescavadeiras foram destruídas em ações na região, mas logo foram repostas por empresários locais. As investigações apontam que há envolvendo de diversos políticos locais com as ações de garimpo que se espalham por todo o município.

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