‘Ele é um cara legal’

‘Ele é um cara legal’

Colegas do procurador da Fazenda que esfaqueou juíza Louise Filgueiras no Tribunal da Avenida Paulista, dizem que Matheus Carneiro Assunção, preso em flagrante e internado nas Clínicas para tratamento psiquiátrico, é um quadro exemplar, 'uma estrela de sua geração'

Renato Jakitas

11 de outubro de 2019 | 06h00

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Jovem, rico, solteiro convicto e obcecado com a imagem social – no trabalho e fora dele. O procurador da Fazenda Nacional Matheus Carneiro Assunção era considerado uma das estrelas de sua geração por colegas procuradores, juízes e advogados. Nas redes sociais, alimentava uma vida de conquistas acadêmicas e profissionais, intercalada por viagens internacionais e baladas caras.

Era cotado para assumir um posto de chefia da Procuradoria em Brasília. E foi em meio a esse clima que ele invadiu o gabinete de uma juíza federal substituta em São Paulo, na última quinta-feira, 3, para golpeá-la no pescoço com uma faca, tentando se suicidar em seguida.

O ataque aconteceu no Tribunal Federal da 3.ª Região, na Avenida Paulista. Ele entrou no gabinete da magistrada Louise Filgueiras, que atua em substituição ao desembargador Paulo Fontes, em período de férias. O golpe, que acabou com um ferimento leve, foi próximo da jugular da juíza. O procurador ainda tentou jogar uma jarra de vidro na magistrada. Errou o alvo e o barulho chamou a atenção dos servidores, que entraram na sala e o imobilizaram.

Segundo seguranças que o detiveram no Tribunal Federal, Assunção afirmou que deveria ter entrado armado no tribunal, ‘para fazer o que Janot deixou de fazer’.

O procurador foi preso em flagrante por tentativa de homicídio qualificado. Por determinação judicial, foi internado no sábado, 5. no Hospital das Clínicas, onde permanece. Também foi aberto incidente de insanidade mental.

Em audiência de custódia na Justiça Federal, Matheus disse que começou a tomar um medicamento psicotrópico cinco dias antes do atentado. O advogado de defesa Leonardo Magalhães Avelar alegou que ele foi acometido por grave perturbação do estado mental.

Incrédulos

Uma semana depois do atentado, na Procuradoria da Fazenda de São Paulo, onde Matheus trabalha há onze anos, ainda reina a incredulidade.

Há quem se questione sobre as motivações. Há quem tem certeza de que tudo não passou de ‘algum surto’ e, ainda, quem se preocupe com os desdobramentos do fato, sobretudo com o que qualificam como uma reação politizada do judiciário. “A juíza institucionalizou”, disse uma procuradora. “Nada ver fazer o que estão fazendo”, considera.

Colegas de Matheus destacam declaração da juíza Louise Filgueiras. Em entrevista ao Estado, a magistrada avaliou que o atentado pode ser resultado de uma mistura ‘explosiva’ entre ‘polarização’ e um contexto de ‘tentativas claras de intimidação’ à magistratura.

Logo após a facada ganhar o noticiário, a Associação dos Juízes Federais do Brasil e a Associação dos Juízes Federais de São Paulo afirmaram que os magistrados sofrem de ‘falta de segurança crônica’, e que o ‘momento político contribui para acirramento dos ânimos e o desrespeito ás instituições’.

‘Aleatório’

“Foi um ataque aleatório”, sacramenta o também procurador da Fazenda James Siqueira, que trabalhou diretamente com Matheus entre 2012 e 2017. “Quem conhece o Matheus sabe que ele não cometeria um ato bárbaro. Certamente foi um surto. Quando soube do que aconteceu, no mesmo dia, foi o átimo segundo mais estranho de minha vida”, disse, na quarta, 9.

Um dia antes, cerca de 100 procuradores se reuniram no anfiteatro da Procuradoria da Fazenda, na região da Avenida Paulista, para discutir o caso. “A gente ficou preocupada porque nos colocamos no lugar dele. Pode ter sido a pressão, poderia ter acontecido com qualquer um”, afirmou o procurador Georges Joseph Jazzar, amigo pessoal de Assunção.

Obcecado

Com origem em uma família tradicional de Recife, Matheus Carneiro Assunção tem 35 anos, estudou direito na Universidade Federal de Pernambuco, mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo.

Ingressou na Procuradoria da Fazenda aos 24 anos e, um ano depois, assumiu a chefia da Divisão de Dívida Ativa da União em São Paulo, com um elenco de 15 procuradores e 70 servidores. “Ele tinha 25 anos, eu 41 anos e ele se tornou meu chefe. Ficou lá por três anos e foi muito bem”, conta Jazzar.

Desde 2012, Matheus atuava na Divisão de Acompanhamento Especial, área de contencioso estratégico onde a União se defende de processos movidos contra o Fisco pelas empresas.

“É uma área muito estratégica. Matheus estava sendo preparado para assumir a subchefia dela, não era segredo de ninguém isso”, diz James Siqueira .

Em cinco anos, o procurador ascendeu três vezes na carreira, de procurador de segunda classe, para de primeira classe e, depois, para classe especial. Com isso, recebe hoje um salário bruto de R$ 27.303,70, mais honorários de R$ 6 mil, totalizando R$ 33 mil mensais.

“Não fuma e não usa drogas”, afirma Ana Paula Bez Batti, que entrou na Procuradoria no mesmo ano em que ele. À Polícia Federal, ele teria afirmado que atravessava problemas psicológicos e era dependente de álcool.

Conhecido por falar muito sobre trabalho e quase nada sobre sua vida pessoal, poucos colegas sabiam, por exemplo, que Matheus, cujos pais residem em Recife, convive com a irmã e o cunhado, que moram em São Paulo.

Nas redes sociais, sobretudo no Instagram, ele compartilhava uma vida de festas e expansividade. “Ele comprou uma Mercedes e gostava de baladas”, conta o amigo Jazzar. “Era adepto de um estilo de vida hedonista”, afirma Siqueira. “Eu acho que ele foi vítima da pressão de tudo. Assim como eu, ele não gosta de reclamar da sorte, reclamar do trabalho, para não passar uma imagem de fraco, indicar um sinal de fraqueza”, conta Siqueira.

Dia do crime

No dia do atentado, Matheus Assunção foi ao Tribunal Regional Federal da 3.ª Região participar do 2.º Congresso de Combate à Corrupção na administração pública. Segundo o Tribunal, ele teve acesso livre ao prédio pela catraca, sem passar pelo detector de metais, após apresentar sua carteira tribunal. Teria entrado com a faca de cozinha escondida sob a roupa.

Assunção teria assistido o congresso antes de invadir a sala da juíza federal Louise Filgueiras. Mais cedo, antes do almoço, ele foi visto em seu gabinete.

“Tudo que eu mais quero é encontrar com o Matheus e dar um abraço. Ele será muito bem recebido aqui”, conta Georges Joseph Jazzar. “Ele é um cara legal.”

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