Colaboração como critério para investimentos de risco

Colaboração como critério para investimentos de risco

Francisco Perez e Claudio Cardoso*

25 de maio de 2021 | 04h30

Francisco Perez e Claudio Cardoso. FOTOS: DIVULGAÇÃO

A imagem do professor Pardal trabalhando em seu laboratório, como um gênio solitário, permanece em algum lugar da memória, talvez até para aqueles que nunca leram as antigas revistas em quadrinhos da Disney. Ele é uma das mais perfeitas caricaturas do cientista excêntrico e mal compreendido, porém super engenhoso e capaz das mais brilhantes soluções para fazer o bem. Apesar da lembrança afetiva desse querido personagem do passado, poucos poderiam representar algo mais anacrônico para quem quer levar a sério os investimentos em startups. A palavra de ordem para os novos empreendedores é colaboração.

Como trabalham os verdadeiros inovadores

Virou lugar comum falar de colaboração, cooperação, união de esforços, trabalho em equipe e temas afins. Contudo, nem sempre a predisposição para atuar em conjunto é algo tão praticado. A capacidade de mobilização de ecossistemas em torno das iniciativas ainda não foi integralmente assimilada como critério de avaliação da saúde das novas empresas. Permanece a tradicional análise do negócio de forma isolada.

O fato é que, ao contrário do inventor solitário, hoje sabemos que as grandes transformações resultaram de longas jornadas colaborativas. Personagens que inspiram o mundo da inovação, de Ada Lovelace, filha do Lord Byron e autora do primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina, em 1842, passando por Alan Turing, Vannevar Bush, John von Neumann, Robert Noyce, Bill Gates, Steve Wozniak, Steve Jobs, Tim Berners-Lee ou Larry Page, têm em comum a capacidade de colaborar e dominar a arte do trabalho em equipe. Acima de tudo, todos foram obcecados por resolver problemas relevantes.

Seguindo a trilha história, percebemos que os empreendimentos mais valiosos não foram aqueles que resolveram isoladamente um problema, mas os que participaram de clusters espontaneamente organizados em torno de desafios comuns, e que solucionaram elos de grande valor em uma cadeia de equações.

Afinal, esse sempre foi um jogo de múltiplos participantes e de ganhos distribuídos. Apesar de um ou outro abocanhar parcelas financeiras mais significativas e ganhar fama, vários outros atores participaram de forma decisiva na construção das grandes inovações, sendo premiados em maior ou menor medida por suas contribuições.

Clusters formados em torno de problemas

Um cluster pode ser definido como um grupo pequeno, e consistente pela semelhança, tanto de empresas, como de objetos. Usualmente, a palavra é utilizada para descrever arranjos industriais, ou para designar grupos de dados na computação. É também usada pela turma da inovação, para agrupar startups que atuam em uma mesma indústria. Por exemplo, no agronegócio, tem-se o cluster das AgroTechs; na saúde, as HealthTechs; no setor financeiro, as FinTechs. E assim por diante.

Conta muito na aprovação das startups em programas de alto padrão o estágio de maturidade empresarial, especialmente, o ritmo de crescimento do negócio. Adicionalmente, conta também o potencial de mercado, o nível de compromisso e a qualidade da equipe, e mais uma série de outros atributos que incluem o histórico de investimentos recebidos e os chamados soft skills dos fundadores.

Clusters formados por startups em torno de um problema aceleram o go-to-market e fortalecem a cadeia de participantes pela interdependência dos seus negócios que, por sua vez, alimenta um ciclo virtuoso de novos desafios e soluções. A valorização deste tipo de clustering (agrupamento) presta contas à própria história da inovação e reforça a crença de que a colaboração é o caminho mais seguro para a construção de negócios promissores e resilientes. Onde todos ganham, cria-se uma força de grupo.

Clusters formados por empreendimentos que se reúnem em torno de um problema seguem a trilha aberta no passado por inventores e empreendedores que transformaram as suas ideias visionárias em realidades disruptivas.

*Francisco Perez, diretor de Novos Negócios do Banco Alfa; Claudio Cardoso, consultor do programa Alfa Collab

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