Coerência é sinal de…?

Coerência é sinal de…?

José Renato Nalini*

03 de janeiro de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

As patrulhas que controlam a vida alheia e que têm preferência por pessoas que nunca podem ser anônimas, exploram posições de hoje, cotejadas com as de ontem. Será mesmo necessário que o ser humano permaneça rijo como uma rocha, insuscetível de mudar de opinião sobre a multiplicidade de temas que afetam sua vida?

Tenho minhas dúvidas. Calcadas num simplório empirismo. Já pensei de uma forma. Revi minhas posturas. Aprendi a conhecer melhor semelhantes com os quais me antipatizara. Colhi decepções. As proclamações de fidelidade na mais valiosa das relações – a amizade – soem desaparecer quando também se extingue um mandato, quando acaba uma gestão, quando já não existe cargo suscetível de oferecer algo mais do que o convívio afetivo.

É preciso respeitar o próximo. Não julgá-lo com aquela régua inflexível, que usamos para os outros, nem sempre para nós mesmos. Hoje compreendo perfeitamente quando antigos adversários se aliam, se estão diante de um inimigo do povo. O que são concepções distintas de mundo, se o perigo concreto ameaça um patrimônio lentamente edificado, cuja ruína representará intolerável retrocesso rumo à barbárie?

Sempre recorri a uma lição de Raul Seixas, quando mencionava preferir a metamorfose ambulante a ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Ainda ouço ele cantando: “Eu quero dizer/Agora o oposto do que eu disse antes/Eu prefiro ser/Essa metamorfose ambulante/Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Somos projetos. Não nascemos feitos e acabados. A cada dia aprendemos algo. E essa é a nossa vocação. Dia em que nada se aprende, é dia desperdiçado. Dia que não volta mais.

Nesse aprendizado, não temos o controle de tudo. Vamos no erro e acerto. Somos cobaias e sabemos que a vida não tem ensaio. É uma encenação definitiva.

Sábios os que sabem voltar atrás. Há exemplos célebres de reconsideração. Reconhecer o erro é lição de sapiência, não de fragilidade.

A história de grandes homens está repleta de episódios que podem parecer estranhos, mas que têm uma lógica.

Veja-se a trajetória de Jean-Paul Sartre. É considerado o criador do existencialismo, foi cultuado por legiões, mas também por elas criticado acerbamente.

Foi no ano emblemático de 1938 que ele escreveu e publicou “A náusea”, um dos livros reveladores da crise de historicidade. Sartre mostrou a filosofia do nada, uma angústia pela marcha insensata do mundo, a liquefazer o mito do progresso infinito da humanidade. O futuro estava sombrio e a palavra de ordem era a liberdade. O existencialismo foi considerado uma espécie de humanismo. Sartre é seu corifeu e defensor: “Eu gostaria, aqui, de defender o existencialismo contra certo número de acusações que lhe têm sido dirigidas. Primeiramente, acusaram-no de incentivar as pessoas a permanecerem em certo quietismo desesperançado uma vez que, sendo as soluções inacessíveis, conviria considerar que a ação, neste mundo, é totalmente impossível, e de levar finalmente a uma filosofia contemplativa, algo que, sendo a contemplação um luxo, nos conduziria a uma filosofia burguesa. Essas são as críticas dos comunistas”.

Só que depois, Sartre vira comunista. Apaixonado e fanático, não enxergava qualquer desvio na política da URSS. Por isso, foi engolindo todos os sapos, à medida que surgiam denúncias da tragédia soviética.

Mas veio o ano de 1956, considerado o ano das rupturas. Nikita Krushov, o novo Secretário Geral do Partido Comunista, revela os crimes de Stálin por ocasião do 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado em Moscou de 14 a 25 de fevereiro de 1956. Nesse mesmo ano, os húngaros sofriam a invasão e enfrentavam os taques soviéticos. Aquilo que era uma esperança gloriosa de um socialismo em que o poder emanaria dos operários, mostrou-se na crueza e na lógica um poder totalitário.

Foi demais para ele. Recusou-se a defender o Partido. Rejeita de maneira explícita e frontal o stalinismo. Rompe com o Partido Comunista Francês. Escreveu um texto extenso e muito bem elaborado. Para ele, a intervenção russa na Hungria foi um crime e a falácia propalada de que os operários combatiam juntamente com as tropas soviéticas “é simplesmente uma mentira abjeta”.

Ele sabe que será chamado de “hiena” e de “chacal”. Tem cinquenta e um anos e é, o que ele mesmo declara em “As Palavras”, “um homem que desperta, curado de longa, amarga e mansa loucura”.

Assina um protesto contra “a utilização de canhões e tanques de guerra para derrubar a revolta do povo húngaro e sua vontade de independência”. Para os desiludidos do comunismo, a exibição de força e violência era esperada. Albert Camus também se posicionara contra a repressão aos operários poloneses: “Não é um regime normal aquele em que o operário é forçado a escolher entre a miséria e a morte”.

A coragem desses intelectuais de renegarem compromissos ideológicos anteriormente firmados deve inspirar aqueles que deixam de lado rusgas, alusões e até ofensas, para se unirem contra o real perigo. Coerência, nem sempre é sinal de inteligência. Pode ser também teimosia e ignorância.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.