Coelhinho da Páscoa, Saci Pererê, Papai Noel e governos do PT

Jorge Pontes*

23 de fevereiro de 2016 | 05h30

Foram precisos quase vinte e quatro meses, vinte e três fases da Operação Lava Jato da Polícia Federal e uma eleição presidencial para que a sociedade brasileira finalmente se desse conta das reais dimensões do que vem acontecendo no País nesses últimos doze anos.

Não há mais nada em que se possa efetivamente acreditar, ou melhor, tudo é possível acontecer, mormente em se tratando da elite política brasileira e desses últimos governos do PT. É mais fácil crer no Saci Pererê, no Coelhinho da Páscoa e em Papai Noel do que nas declarações e promessas dos nossos atuais governantes.

O brasileiro já não sabe mais onde pisa. Se a Mega-Sena acumula 200 milhões, ficamos incertos sobre a lisura do concurso e, inclusive, acerca da existência de reais ganhadores da bolada; se organizamos grandes eventos esportivos internacionais, não sabemos ao certo o que há por detrás de tantos gastos e tantos estádios, nem tampouco as verdadeiras razões das candidaturas, tamanha a insegurança, o abismo moral dos “escolhidos” para administrar a coisa pública e a avalanche de escândalos que desfilam nas manchetes dos jornais. Será que as eleições presidenciais de 2014 foram de fato realizadas com lisura e sem fraudes? O que nos autoriza a acreditar em qualquer coisa que sofreu alguma influência desse partido político que transforma em fraude e engodo tudo em que encosta? Hoje, por incrível que pareça, desconfiamos até da lista de convocados da Seleção Brasileira.

O Brasil foi, ao fim e ao cabo, apresentado ao crime institucionalizado, um câncer, um flagelo cujo combate parece exigir heroísmo extremado dos encarregados da sua persecução penal, pois, afinal, combatem – grosso modo e em última instância – seus superiores hierárquicos.

Como já explicado à exaustão, essa modalidade delituosa posiciona-se algumas centenas de degraus acima do crime organizado convencional. Não há nada mais intrincado e desafiante do que combater uma estrutura criminosa que se encontra engastada no próprio Estado, com autoridades e agentes nomeados em diário oficial, indicados e escolhidos a dedo para delinquir, fraudar e desviar recursos públicos. Esses atores do crime institucionalizado estão estabelecidos em patamar hierárquico superior àqueles que os investigam. Com essa folga, os criminosos acabam garantindo, não apenas a continuidade dos seus lucros, mas, sobretudo, a impunidade dos esquemas ilícitos.

A Lava Jato também nos mostrou que esse crime institucionalizado não observou limites. A engenharia elaborada por seus titulares produziu uma máquina para desviar e amealhar bilhões de reais com o objetivo secundário de comprar apoio político e o intento primário de manutenção do seu grupo no poder. Aliás, não se sabe mais ao certo o que havia de fato na gênese desse projeto: o poder para amealhar o dinheiro ou o dinheiro para consolidar o poder. As fomes, de fato, se confundem, e hoje não sabemos mais se os pixulecos foram meio ou foram fim.

Todavia, passado o momento inicial de estupefação, falta ainda ao brasileiro médio chegar à última das conclusões: se os altos gestores do crime sistêmico institucionalizado tiveram a audácia e determinação para promover tantas fraudes, envolvendo as mais elevadas esferas da república, agindo sem a menor das cerimônias, por que não lançariam seus tentáculos, seus exércitos de nomeados, suas legiões de paus mandados, com os demais instrumentos a eles disponíveis e com a ganância que lhes é peculiar, para fraudar as eleições presidenciais de 2014?

O que nos autorizaria hoje a acreditar nos escrúpulos daqueles que não demonstraram limites para destruir a Petrobras, maquiar a contabilidade do Brasil com pedaladas e desviar dinheiro sujo para as suas campanhas eleitorais? Por que deixariam escapar nas urnas o maior projeto de poder já orquestrado nesse país? De que adiantaria o Mensalão e o Petrolão se o grupo que pilota esse esquema perdesse, nas eleições de outubro de 2014, o comando e o controle da máquina pública federal?

A Operação Acarajé da Polícia Federal, contudo, deflagrada no dia 22 de Fevereiro de 2016, começa a descortinar o que pode ter sido um trambique eleitoral sem precedentes na nossa História, e, infelizmente, a confirmar a tese do crime institucionalizado. Estariam a PF e o MPF prestes a puxar o fio da meada do financiamento criminoso nas últimas corridas presidenciais, ao rastrear o dinheiro que, desviado dos esquemas de corrupção do Petrolão, abasteceram as campanhas daquele partido que o capitaneou.

Entretanto, a possibilidade da ocorrência de aparelhamento e fraudes no sistema eletrônico de votação adotado pelo Brasil é, ainda, para a maioria dos brasileiros, uma lenda urbana, fruto de desacreditadas teorias de conspiração. E, de fato, as evidências nesse sentido são escassas. Hoje, até o momento, são poucos os que creem que os operadores do crime sistêmico institucionalizado tenham também cuidado para garantir a continuidade do seu projeto de poder, estendendo suas ações e influências sobre a votação eletrônica no último pleito para a presidência da república Mas como disse recentemente a revista britânica The Economist, “no Brasil, até o passado é imprevisível”. Sabe-se lá o que poderá ainda surgir desse enorme lamaçal que a Polícia Federal e o Ministério Público Federal estão ainda a revolver.

Mas, enquanto não chegamos ao grand finale desse dilúvio vergonhoso, nós, sociedade brasileira, atendamos ao chamamento do Juiz Sérgio Moro e tomemos as ruas e as praças do Brasil no dia 13 de Março; vamos em apoio à Operação Lava Jato, no seu momento crítico de alcançar as autoridades mais poderosas, os tais “intocáveis”, até então. Vamos apoiar a Justiça, o Ministério Publico e também clamar pela concessão de autonomia financeira e administrativa para a Polícia Federal, que é constitucionalmente estabelecida como polícia judiciária da União. Vamos mostrar para esse bando de picaretas de quem é o Brasil afinal.

* Jorge Pontes é delegado da Polícia Federal e foi diretor da Interpol no Brasil

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