Cocooning e o vício da interioridade: um efeito da pandemia

Cocooning e o vício da interioridade: um efeito da pandemia

Jelson  Oliveira*

04 de maio de 2021 | 07h30

Jelson Oliveira. FOTO: DIVULGAÇÃO

A palavra inglesa cocooning poderia ser traduzida como encapsulamento (ou enclausuramento, se quisermos) e foi cunhada em 1990 pela escritora futurista Faith Popcorn, que o definiu como um impulso de ficar dentro de casa quando o lado de fora fica muito complexo e assustador. Nessa situação, todos nós sabemos, buscamos dentro de casa uma segurança que perdemos no mundo aberto. Queremos o aconchego e o conforto do lar, transformado em ninho, no qual podemos viver de forma mais lenta e agradável. Essa seria, segundo as previsões de Popcorn e dos pesquisadores de sua agência de marketing, uma tendência da humanidade no futuro, amplamente assegurada pelos meios tecnológicos que dirimem as distâncias e possibilitaram que tudo esteja à mão com o clique de um botão.

Popcorn falou isso em 1990, não se esqueça, quando uma pandemia como essa que atravessamos agora, embora previsível, não era mais do que uma ameaça longínqua na cabeça de alguns hippies pessimistas e cientistas ousiders. Agora que a Covid-19 chegou e nos obrigou a fazer da casa um abrigo, um bunker, um refúgio ou uma prisão, podemos dizer que o cocooning alcançou o seu auge. Conectados em nossos artefatos tecnológicos, desde dentro de nossa casa, acompanhamos os números de mortos, as tragédias da política e as ameaças climáticas. Pedimos comida, compramos livros, assistimos filmes, falamos uns com os outros por vídeo-chamadas e, sobretudo, muitos de nós trabalhamos de pijama. Paul B. Preciado, no seu Pornotopia mostrou como o fundador da Revista Playboy, o senhor Hefner, foi um assíduo praticante dessa tendência, com sua cama giratória cheia de botões, na qual, além de orgias, realizava-se quase tudo, incluindo reuniões de trabalho e almoço de negócios. Tudo sem sair de casa.

Outro exemplo desse conceito podem ser os hikikomori japoneses: jovens que vivem sem sair dos seus quartos porque ali, conectados, encontram todas as condições para viver sem contato (presencial) com qualquer outro ser humano. O termo foi cunhado pelo psicólogo Tamaki Saito, no seu livro de 1998, cujo título é Isolamento social: uma adolescência sem fim. Uma sociedade fechada é sempre, portanto, uma sociedade adolescente, que nunca sai de casa (o sentido pode ser aquele dos adultos que continuam dependentes dos seus pais). No Japão, o governo chegou a contabilizar que 1,57% da população vivia nessa condição, enquanto em Hong Kong o governo estimava que 1,9% da população viva isolada, em 2014. Obviamente esses números mostram como o isolamento pode estar associado a transtornos mentais, medo do outro, medo do mundo.

Se levarmos em conta os muitos condomínios fechados, vigiados com câmeras em cada dobra e bordados com cercas de arame eletrificado (que Bauman chamou de “guetos voluntários”), no qual é pretensamente possível ser feliz de forma integral, podemos afirmar que essa realidade já chegou para muitas pessoas. Nesses lugares de autossegregação, é possível rezar em grupo, confraternizar com os amigos à beira da piscina ou na academia, receber massagens e todo tipo de prazer sem sair de casa. Tudo o que precisamos está, teoricamente, à disposição, sem que ninguém precise se arriscar lá, no mundo real, que é o mundo de todos, o perigoso lugar do estranho e do perigoso contato com o outro – estará ele doente ou armado, será feio ou sujo, ameaçador ou insolente? Melhor evitar sair de casa. A rua, a cidade, o mundo e seus habitantes se tornaram perigosos demais.

E assim, aos poucos, nos tornamos viciados em interioridade. Nem sempre a interioridade de dentro de nós mesmos, mas aquela outra, que remete apenas ao interior de uma redoma a prova de balas na qual podemos permanecer na posse de quase tudo, mas sem posse de nós mesmos. Tudo se passa como se o poder de um clique nos dispensasse da necessidade de mais. Hiperconectados, somos donos do suficiente e podemos permanecer senhores de nossa casa (dominus, vale lembrar, remete a isso, donde o poder, a dominação). Satisfeitos, a única preocupação é a queda do sinal, a falha do wi-fi, a instabilidade do sistema e o atraso da entrega. O resto é um eterno big brother, não apenas pela vigilância dos algoritmos, mas pelo confinamento compulsório.

Assim, presos e seguros, distantes dos outros, sequestrados pela virtualidade, até onde seremos plenamente humanos? Será esse apenas um fenômeno passageiro ou será um novo vício, como profetizaram os marqueteiros dos 1990? Passada a pandemia, meio pálidos, os que cumprimos as regras de isolamento, ainda sairemos de casa para ir ao cinema, viajar, frequentar a casa dos amigos, colher uma fruta no pé ou escolher o próprio vegetal para comer, ou preferiremos ainda apenas o aconchego do lar, fechado sobre si mesmo, na forma de um degredo voluntário? Tenho medo de me acostumar. E você?

*Jelson  Oliveira  é filósofo, professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR)

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