Cobaias humanas: política de Estado?

Cobaias humanas: política de Estado?

Felipe Bonamin Viveiros de Paula*

28 de julho de 2021 | 06h00

Felipe Bonamin Viveiros de Paula. FOTO: VIVIANE SEEGER

Qual o impacto da saúde na cultura de um país? Quais os efeitos da busca por protagonismo internacional na voz dos cidadãos do mundo? As Ilhas Marshall têm a resposta. O país, feito de 97,87% de água, foi povoado por micronésios desde o segundo milênio a.C.. A longa e recente história das ilhas não é conhecida. Mas, deveria ser.

Apelidada por seus habitantes como jolet jen Anij, em português “Presente de Deus”, as ilhas já foram parte das Índias Orientais Espanholas no século 16, vendidas ao Império Alemão no século 18, ocupadas pelo Japão na Primeira Guerra Mundial e controladas pelos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. A independência chegou em 1979 e, desde então, embora emancipado, o país desfruta de uma “livre associação” com os EUA, os responsáveis pela segurança e pela defesa das ilhas. Será verdade?

Espalhadas por uma remota faixa do Oceano Pacífico do tamanho do México, as Ilhas Marshall é um dos países menos povoados do planeta Terra. Seus ancestrais, com muita propriedade, sabiam que habitavam um “presente de Deus”, isolados em um cenário de praias intocadas, lagoas e recifes de corais. Uma vantagem, uma desvantagem. A localização remota fez das ilhas um alvo para os testes nucleares dos EUA durante a Guerra Fria. Entre 1946 e 1958, os norte-americanos detonaram – nada mais nada menos – que 67 dispositivos atômicos nas Ilhas Marshall. A irresponsabilidade ética dos Estados Unidos pesa tanto quanto o impacto radioativo acumulativo de mais de 7.000 bombas de Hiroshima. Exatamente. A maior potência mundial explodiu o equivalente a 1,6 artefatos nucleares de Hiroshima por dia, durante 12 anos, nas Ilhas Marshall.

A cultura do país, até hoje, sofre o impacto da bomba de hidrogênio de 15 megatoneladas lançada em 1954 no Atol de Bikini. Conhecida como “teste de Castle Bravo”, foi a maior explosão nuclear que os Estados Unidos já realizaram em sua história, três vezes mais poderosa do que haviam previsto e 1000 vezes mais poderosa do que as armas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki. Estamos falando de uma nuvem radioativa de 130.000 pés que se espalhou por quilômetros no Oceano Pacífico.

Durante séculos, o povo das Ilhas Marshall contou sua história através do canto. Sua voz não só recita o amor não correspondido, a vida marinha, as navegações, a fé e as lendas de um ponto de vista malaio-polinésio. Rara oportunidade para quem está acostumado – e acomodado – a enxergar o mundo sob o caleidoscópio do próprio ego. A insensibilidade mata. É assim com a radioatividade e o descaso norte-americano. A primeira é insensível, porque invisível. O segundo é insensível, por falta de caráter disfarçado de “interesse nacional”. É isso que traz na vida e na música Carlton Abon, o mais famoso compositor das Ilhas Marshall.

Com quatro álbuns de estúdio e dois remixes, Abon foi um artista de sucesso do Pacífico Central. E seria até hoje, não fossem as explosões nucleares. Durante a última década, Abon desenvolveu um nódulo cancerígeno na garganta e sua voz de seda, cedeu. Hoje, sua música sobrevive nas estações de rádio e nos aparelhos de som dos táxis espalhados pelo país. Os distúrbios da tireoide aumentaram de maneira exponencial nas Ilhas Marshall depois que os residentes foram expostos aos testes nucleares dos EUA. Em razão da desumanidade norte-americana, o hit Ilju Ne Am (“Seu Futuro”) é um assovio desafinado na cabeça do artista, amarga memória do som. Os cantores do país, vítimas da impunidade da grande potência mundial, lutam para cantar. O maior músico do país hoje trabalha em silêncio, burocrata em um escritório anônimo na capital Majuro.

A narração de histórias era crucial no país-insular. Hoje, as palavras saem com força, mas sem ar. Os testes nucleares não só romperam os tecidos vocais dos marshalleses, como atrofiaram seu tecido cultural – já desgastado por séculos de domínio colonial espanhol e alemão, pela anexação japonesa e pelo controle norte-americano. A indiferença na saúde, a ausência de amparos e reparos legais não são frutos de negligência. Com consciência dos riscos, cientistas e médicos norte-americanos conduziram experimentos com os residentes das ilhas. O Projeto 4.1 foi implementado e, como evidente em pesquisas acadêmicas, utilizado como fonte de pesquisa pelos EUA para estudar os efeitos da chuva radioativa na região. Os marshalleses foram, com o respaldo dos Estados Unidos e a omissão do Mundo, submetidos a procedimentos médicos invasivos, inocentes cobaias humanas. Houve um enorme aumento de abortos espontâneos e anormalidades congênitas, e os que habitavam a região há mais de 2000 anos não foram informados da existência dos riscos aos quais estavam expostos. Um crime contra a humanidade.

O câncer de tireoide se tornou uma das principais causas de morte no país. A compositora Lijon Eknilang é uma das icônicas artistas marshallesas que perdeu a sua voz. Tinha apenas oito anos de idade quando a bomba mais potente explodiu. Um tempo mais tarde, apareceu o câncer na sua tireoide. Os médicos removeram a glândula, deixando uma lesão vocal permanente. Os doutores norte-americanos referiam-se aos marshalleses por números de série no tratamento, não pelos nomes. Eram casos de estudo, não pacientes. A famosa artista, já não era Lijon, mas a “número 53”. Ao longo de sua carreira, escreveu canções sobre a apatia norte-americana e os horrores da radiação. Uma de suas emblemáticas canções é Kajjitok in aō ñan kwe kiō (“Essas são minhas perguntas para você agora”). A faixa compartilha as tentativas dos marshalleses em pressionar os Estados Unidos, dada a urgência internacional em receber respostas para os problemas de saúde da população.

O que os Estados Unidos fizeram durante 12 anos em experimentos nucleares, não foi mera casualidade. Usufruem de sua impunidade. Nada mais pungente do que fazer perguntas sobre cuidados médicos – e éticos – de sua população, 50 anos após o período de testes nucleares. No final da década de 1980, o governo marshallês formou um Tribunal de Reclamações Nucleares, com financiamento norte-americano, para julgar e quitar danos às vítimas da radiação. Os Estados Unidos nunca financiaram o tribunal de maneira adequada e, em 2006, o fundo era mínimo. Lijon Eknilang compartilhou a responsabilidade de dar voz ao silêncio até sua morte, em 2012.

Qual o impacto da saúde na cultura de um país? Em um país com 58.000 habitantes, quando um ou dois artistas são afetados, o choque em sua indústria cultural é grande. Uma crise de saúde é, também, uma crise de cultura. Assim como foram vítimas o compositor Carlton Abon e a compositora Lijon Eknilang, as altas taxas de câncer e sua mortalidade sufocam os modos de vida nativos, que desaparecem junto com a população.

Os marshalleses sofrem com a falta de opção pela vida. São obrigados a viver sob as consequências dos testes nucleares, realizados de maneira estratégica pelo governo norte-americano. Os músicos marshalleses perderam sua vida e sua voz por desrespeito dos antigos colonizadores à vida. A radioatividade está matando de maneira lenta e gradativa, milênios de tradição. Os Estados Unidos, na busca por protagonismo internacional, enxergaram os cidadãos da Micronésia como micro-cidadãos. Não poderiam, gente não é lixo radioativo. Pelo contrário, são os marshalleses quem tem macro-dignidade, de sobreviver à margem da sobrevivência. A falta de moral dos poderosos silencia um crime internacional contra a humanidade. “Acidente de trabalho” ou política de Estado?

*Felipe Bonamin Viveiros de Paula, graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP, tem extensão universitária em Comunicação Empresarial pela Universidade da Colúmbia Britânica (Canadá) e é mestre em Relações Internacionais e Organização Internacional pela Universidade de Groningen (Holanda). Escreve e edita o site: www.culturadorestodomundo.com

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