Clube-empresa e o técnico prestigiado

Clube-empresa e o técnico prestigiado

Gustavo Nadalin*

26 de agosto de 2021 | 04h15

Gustavo Nadalin. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

É possível que muitos não saibam, mas, nos bastidores do mundo da bola, há uma aposta quase certa de se ganhar. Quando seu time atravessa uma má fase, com derrotas constantes e pressão da torcida – que pede raça e reclama da qualidade do futebol jogado –, a diretoria, invariavelmente, afirma para a imprensa que o comandante do time não corre risco, que o técnico está prestigiado. Podem apostar, na rodada seguinte ele será demitido.

Esta é a típica criação do famoso fato novo, na tentativa de, com a troca de uma só peça – o treinador –, mudar radicalmente o rumo do time no campeonato. Evidentemente que, quase sempre, se muda para continuar na mesma, já que os mesmos jogadores, departamento de futebol e diretoria continuam lá.

Portanto, a troca de técnicos quando resultados positivos não acontecem nada mais é que um ato desesperado e simbólico, na tentativa de camuflar algo em que nossos clubes são historicamente craques: na falta de profissionalismo e de planejamento em suas gestões.

Mas, há um novo fato nesse cenário, que vem sendo apontado como a salvação do futebol brasileiro por muitas personalidades da mídia esportiva e da comunidade jurídica, na esperança de que em pouco tempo nosso campeonato nacional faça frente à Premiere League, por exemplo. Trata-se da Lei do Clube-Empresa, que acaba de receber sanção presidencial.

Confesso que gostaria de me juntar a esse time de otimistas, mas minha experiência não me permite. Não será a forma associativa dos clubes que definirá o sucesso do nosso futebol, tornando-o um valioso produto para consumo global. Isto porque os investidores não querem saber se o seu dinheiro foi aplicado em uma associação, fundação, empresa Ltda. ou S.A. O que interessa a eles é a segurança jurídica e a possibilidade de retorno de seus investimentos, seja financeiro ou de imagem.

Por isso, os clubes devem começar imediatamente um profundo trabalho de arrumação da casa, a fim de receber a tão desejável visita desses investidores. Este trabalho deve ser minimamente focado em três pilares: tratar o passado, fazendo um diagnóstico (assessment) financeiro, para recuperação e/ou reestruturação financeira; implementar governança, focada em controles internos e programa de integridade, prevendo o cumprimento das regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ações voltadas para ESG (ambiental, social e governança); e somente então decidir qual a estrutura societária seria a ideal para o clube receber investimentos: associação ou clube-empresa. A regra aqui é muito clara. Não adianta arrumar o passado sem ajustar o presente e, sem isso, o futuro continuará incerto, independentemente da lei.

Seja qual for a escolha, o clube que trilhar eficazmente estes passos certamente passará a ser uma instituição muito mais atrativa ao mercado. Para os que não seguirem este rito, a Lei do Clube-Empresa será tão somente um fato novo, seguido da demissão daquele técnico outrora prestigiado. Ou seja, mudar para continuar na mesma.

*Gustavo Nadalin é sócio especialista na Indústria de Esportes da Grant Thornton Brasil

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