Clima na Lava Jato é de terra arrasada e revolta com interferência na PF

Clima na Lava Jato é de terra arrasada e revolta com interferência na PF

Demissão de ministro Sérgio Moro e falsa 'exoneração a pedido' de diretor-geral da PF, Maurício Valeixo, surpreendeu investigadores da força-tarefa, em Curitiba e no Rio, e torna futuro incerto para combate à corrupção

Ricardo Brandt e Fausto Macedo

24 de abril de 2020 | 13h00

Sede da Polícia Federal, em Curitiba. Foto: Alex Silva/Estadão

O clima entre a equipe de delegados e investigadores da força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba e no Rio de Janeiro, é de terra arrasada e revolta, com as tentativas de interferência da Presidência na Polícia Federal. O anúncio de demissão do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, e a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, do comando da Polícia Federal, coloca um futuro incerto para as equipes, principalmente as ligadas diretamente às apurações do escândalo Petrobrás.

Moro e Valeixo eram dois pilares da Lava Jato na Polícia Federal e das investigações de combate à corrupção no Brasil.

Moro foi juiz da 13.ª Vara Federal em Curitiba, origem da Operação Lava Jato, que já prendeu 293 pessoas e recuperou R$ 4 bilhões aos cofres públicos. Valeixo foi diretor da Diretoria de Combate do Crime Organizado (Dicor) durante os primeiros anos da Lava Jato, chefe da Inteligência da PF e superintende da PF em Curitiba por duas vezes, antes de ser levado para o cargo de diretor-geral – posto máximo do órgão.

Entre diretores subordinados diretamente a Valeixo na PF, em Brasília, o clima era de derrota, pela manhã desta sexta-feira, 24. O que mais surpreendeu a equipe, que já sabia da queda de braço entre o presidente, Jair Bolsonaro, e Moro sobre a autonomia da polícia, foi a forma como ocorreu a exoneração.

Foto: Reprodução

No decreto publicado no Diário Oficial da União, com data de 23 de abril, consta que Valeixo foi exonerado “a pedido” e o nome de Moro abaixo do nome de Bolsonaro.

O diretor-geral da PF não apresentou pedido de demissão. Para delegados ouvidos pela reportagem, se comprovado, o fato pode caracterizar falsidade ideológica.

Na entrevista coletiva à imprensa, na manhã desta sexta, Moro afirmou que que não houve pedido de Valeixo e que também não assinou a exoneração do colega. “Fui surpreendido. Achei que foi ofensivo. Não houve exoneração a pedido”, afirmou o ministro demissionário. “Fiquei sabendo pelo Diário Oficial, não assinei esse decreto.”

As tentativas de Bolsonaro exonerar Valeixo eram conhecidas, mas havia uma espécie de acordo que até junho nada aconteceria, segundo apurou a reportagem.

Moro destacou que tentou “proteger a PF”. “Busquei soluções alternativas para evitar crise política em meio à pandemia. Entendi que não posso deixar de lado meu compromisso com o Estado de Direito. A exoneração fiquei sabendo pelo Diário Oficial. Ele não pediu exoneração, recebeu uma ligação que sairia ‘exoneração a pedido’.”

Interferência. Moro afirmou publicamente ao anunciar sua demissão que Bolsonaro tentou interferir politicamente no comando da PF para obter acesso a informações sigilosas e relatórios de inteligência. As tentativas de manter contato direto com a direção da polícia do presidente foram várias.

“O presidente disse que queria alguém do contato pessoal dele, para ligar, colher informações, colher relatórios de inteligência. Não é o papel da PF prestar esse tipo de investigação. Imagine se na Lava Jato ministros e presidentes ficassem ligando para o superintendente em Curitiba para colher informações.”

 

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