Citado em delação como operador de repasses a Toffoli, ex-secretário diz que Cabral ‘cria fatos por desespero’ e nega ter conhecimento de vantagens indevidas ao ministro

Citado em delação como operador de repasses a Toffoli, ex-secretário diz que Cabral ‘cria fatos por desespero’ e nega ter conhecimento de vantagens indevidas ao ministro

Ex-secretário de obras do Rio, Hudson Braga diz que alegações do ex-governador são 'mentirosas' e que jamais soube de qualquer pagamento ilegal a Toffoli; apontado como beneficiário de decisão, prefeito de Volta Redonda, Antônio Francisco Neto, diz que são 'acusações sem provas e com motivação desconhecida'

Rayssa Motta, Fausto Macedo/São Paulo e Caio Sartori/RIo

13 de maio de 2021 | 14h54

Ex-secretário de obras do Rio, Hudson Braga veio a público negar as informações citadas no acordo de colaboração do ex-governador Sérgio Cabral, preso na Operação Lava Jato, de que teria operado repasses ilegais ao ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), em troca da venda de decisões judiciais favoráveis ao prefeito de Volta Redonda, Antônio Francisco Neto (MDB).

As informações da delação sigilosa vieram a público na última terça-feira, 11, depois que a Polícia Federal pediu a abertura de uma investigação contra o magistrado. Como mostrou o repórter Rafael Moraes Moura, a tendência é que a Procuradoria Geral da República (PGR) embargue a abertura de um inquérito. Toffoli afirma que jamais recebeu dinheiro ilegal.

Em nota, através do advogado Roberto Pagliuso, o ex-secretário diz que jamais chegou ao seu conhecimento o oferecimento de qualquer vantagem ao ministro. “Sérgio Cabral tenta se safar de suas responsabilidades, alterando suas estratégias. Ora negou os fatos, ora adotou manobras processuais e depois de ver a consolidação de suas penas, resolveu, por desespero, criar fatos para viabilizar sua colaboração premiada. Nunca teve qualquer apreço pela verdade, nunca produziu qualquer prova de suas alegações mentirosas”, diz a manifestação.

Neto também criticou o delator. Por meio de nota, afirmou que ‘não comentará mais acusações sem provas, feitas com motivações ainda desconhecidas’.

A defesa de Sérgio Cabral, por sua vez, afirma que o ex-governador ‘apresentou todos os relatos, com a indicação de fatos precisos e dados de corroboração’.

O ex-governador Sérgio Cabral, condenado na Operação Lava Jato. FOTO: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Delação de Cabral

Em um dos trechos de sua colaboração premiada, Cabral acusa Toffoli de receber cerca de R$ 4 milhões para ajudar dois prefeitos do Estado do Rio em processos que tramitavam no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O ministro atuou na Corte Eleitoral de 2012 a 2016. De acordo com o delator, os pagamentos efetuados por Hudson Braga teriam alcançado o escritório da advogada Roberta Rangel, mulher de Toffoli.

Em abril, Toffoli compôs a maioria – de quatro votos a três – que confirmou o afastamento do prefeito de Volta Redonda do cargo. Dois meses depois, em junho, o tribunal analisou embargos de declaração apresentados pela defesa. Foi quando o ministro mudou de opinião e votou pelo retorno de Neto à prefeitura.

O Supremo Tribunal Federal ainda vai revisitar a decisão que homologou a delação do ex-governador, processada na Corte por envolver autoridades com prerrogativa de foro privilegiado. Isso porque a Procuradoria-Geral da República (PGR) contesta o acordo, por considerar que não foram apresentados fatos novos. A análise do recurso está marcada no plenário virtual, a partir de 21 de maio.

Na delação, Cabral se comprometeu a devolver aos cofres públicos R$ 380 milhões recebidos como propina enquanto foi governador. Preso desde novembro de 2016 e condenado a penas que ultrapassam 340 anos de prisão, ele admitiu ter recebido propina durante seu governo no início em 2019, quando chegou a dizer que seu ‘apego a poder e dinheiro é um vício’. Desde então, passou a confessar crimes cometidos em depoimentos à Justiça, chegando a citar os ex-prefeitos Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos).

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