Cisne Negro x Cisne Verde

Cisne Negro x Cisne Verde

José Renato Nalini*

28 de abril de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O negócio da empresa sempre foi fazer negócios. Desde o século passado, cientistas advertiam que a festa iria acabar. Ou a humanidade acordaria para o fenômeno do aquecimento global, ou iria acabar como entidade viva. Os estragos causados ao planeta se agravaram e aqueles avisos de que as novas gerações responderiam pela incúria das atuais mostraram-se insuficientes. Ocorre que as consequências chegaram muito antes. Não era para daqui a cem anos. As tragédias acontecem aqui e agora.

Rachel Carson escreveu “A Primavera Silenciosa” em 1962. Conseguiu sensibilizar alguns leitores. Nicolas Georgescu-Rogen, um economista que ousou afirmar que a economia deveria se aproximar da ecologia, viu-se condenado ao ostracismo em 1973. Embora tardiamente, verificou-se que ele tinha razão. O negócio da empresa tem de ser holístico. Na verdade, existe a síntese ESG que é suficiente para transformar a mentalidade fordista numa consciência humanista.

O livro de Marcelo Mazin, “O Brasil a favor da corrente – a sustentabilidade vista como ideia matriz”, publicado pela Dialética, mostra como a situação planetária forçou uma reversão de rumo. Ainda tímida, para fazer frente aos desafios. Mas sintomática de que o capital percebeu que só haverá futuro se houver substituição do Cisne Negro pelo Cisne Verde.

Os efeitos da devastação fizeram com que a continuidade de uma política de exploração da natureza até o exaurimento, se não merecesse uma pausa, fosse reavaliada. O crescimento acumulativo exagerado, a economia linear, o desperdício, a desconsideração quanto à finitude dos recursos ecológicos, tudo fez com que se revisse a aceleração do percurso até à fatalidade entrópica, o que bem define o que significa um Cisne Negro.

Desenvolvimento econômico só focado na obtenção de lucro, é nefasto a longo prazo. A desenvoltura com que os grandes conglomerados empresariais cresceram fez com que eles fossem comparados com grandes cisnes negros, expressão que se tornou pejorativa após a grave crise financeira de 2008. Os economistas tentaram explicar eventos danosos, aparentemente imprevisíveis, causadores de intenso impacto negativo e trágico. Por isso a figura do Cisne Negro, algo assustador para quem só esperava o aumento quantitativo da produção, do lucro, dos bônus e dos dividendos.

Em 2020, o Bank for International Settlements, da Suíça, publicou um estudo elaborado por Patric Bolton, Luiz Pereira da Silva, Morgan Despres, Romain Svartzma e Frédéric Samama, chamado O Cisne Verde.

É a substituição do terrível Cisne Negro por uma outra concepção de empreendimento, que leve em consideração a tutela ambiental, a redução das desigualdades e uma governança corporativa inteligente em todos os setores.

Não se diga que o Cisne Verde elimina, automaticamente, todos os problemas mundiais. Já foram detectados cinco grandes riscos que permanecem, ainda com uma nova consciência ecológica: 1. Risco de crédito, já que as alterações climáticas podem dificultar o adimplemento das obrigações; 2. Risco de mercado, desde que a demanda perceba que o retorno dos investimentos será duvidoso, em virtude de ocorrências no âmbito do ambiente; 3. Risco de liquidez, que atingirá as instituições financeiras; 4. Risco operacional, pois as mudanças climáticas podem inviabilizar o funcionamento das engrenagens do sistema e 5. Risco de cobertura, que tende a sufocar o setor de seguros, ante o crescimento dos infortúnios causados pela insensatez humana ao ambiente.

O considerado Pai da filosofia ESG, John Elkington, escreveu em 2020 o livro “Cisne Verde”, tornando ainda mais simplificado o conceito. Para ele, aquilo que se oferece à humanidade nesta década poderá ser o pior dos tempos, se os ataques à natureza continuarem, seja por ignorância ou até por má-fé. Poderia ser o melhor dos tempos, para os que acordarem para a realidade e perceberem que a Terra é o único habitat com que os homens podem contar e que, uma vez destruída, o planeta continuará a vagar pela galáxia, mas como esfera morta, desprovida de qualquer espécie de vida.

Elkington conceitua Cisne Verde como a situação derivada de “uma mudança profunda no mercado, geralmente catalisada por alguma combinação de desafios do cisne preto ou cinza e mudanças de paradigmas, valores, conjuntos, políticas, tecnologias, modelos de negócios e outros fatores-chave”. Sua diferença com o Cisne Negro é que este é conduzido por exponenciais ruins, enquanto o Cisne Verde se deixa guiar por exponenciais bons, racionais e saudáveis.

É incrível como o Brasil, que tem ordenamento mais do que exuberante para tutelar o ambiente, viu-se engolfado por uma sequência de desvarios, retrocedendo até na área principiológica da ecologia, depois de ter sido considerado um paradigma verde no mundo civilizado.

Que o capital internacional e a persuasão da ciência e de Estados que levam a sério as mudanças climáticas imponham imediata reversão dos catastróficos rumos recentemente escancarados em todos os biomas, notadamente a Amazônia, em aparência condenada à extinção.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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