Cidades pós-pandemia – II

Cidades pós-pandemia – II

José Renato Nalini*

10 de julho de 2021 | 05h30

A partir da análise que o arquiteto Nabil Bonduki faz a respeito das cidades brasileiras depois do flagelo da COVID-19, iniciou-se menção a cada um dos elementos indicados pelo elaborador do Plano Diretor do município de São Paulo. Examinaram se, no artigo anterior, os onze primeiros elementos citados. Prossegue-se, agora, quanto aos demais.

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Assim, o 12º elemento é o comércio virtual tornar-se mais utilizado, o que afeta profundamente as lojas físicas e até os shoppings centers, que perdem clientela e receita. Por outro lado, prosperam os centros logísticos de distribuição de apoio ao comércio online. Um efeito benéfico é a familiarização do pequeno comerciante com o mundo web. O delivery passou a ser a regra e o e-commerce é uma realidade que vai de vento em popa.

  1. Quando as pessoas trabalham mais em casa do que na antiga sede do emprego, elas tendem a circular mais em sua região, o que pode fortalecer relações de vizinhança e redes de solidariedade local. Impulso, não só para o comércio, mas para a sedimentação do Terceiro Setor, com associações de bairro e iniciativas de tutela dos interesses especificamente locais. Intensifica se o senso de pertencimento.
  2. O centro da cidade continua a perder atratividade. Reduz-se o espaço ocupado por escritórios, o que faz baixar o valor do aluguel de imóveis e áreas corporativas. No último trimestre, em São Paulo, 22,4% desses espaços estavam vagos. Em consequência, comércio e serviços do entorno, principalmente os restaurantes, perdem boa parte de sua clientela.
  3. A decadência dos espaços afetados pelo esvaziamento precisa ser enfrentada com uma política eficiente de destinação mista, principalmente com mais moradias. Consta que são 300 mil os prédios vagos na capital, cuja ocupação residencial, em apenas um quarto da capacidade, solucionaria a carência habitacional da cidade. E estimularia a construção civil, pródiga na criação de postos de trabalho.
  4. A casa converteu-se em lugar de entretenimento. A TV aberta disputa espaço com plataformas digitais pagas, como Netflix, Globo play etc. Há uma abundância de espetáculos teatrais online, lives musicais, mas também filmes e óperas, além de apresentações de ballet. Quando cessar o confinamento, os produtores de eventos terão de se reinventar para competir com as atrações disponíveis dentro do lar.
  5. Os grandes espaços culturais e de gastronomia, tais como teatros, cinemas, casas noturnas, bufês, bares e restaurantes, perderam sustentabilidade econômica. O brado em favor da cultura não ecoa tanto como aquele emitido em favor dos famélicos. Mas é preciso pensar também nas inúmeras fórmulas de convívio, que precisarão ser formatadas de novo quando os brasileiros voltarem a conviver.
  6. Outro aspecto importante é considerar que São Paulo é um grande centro promotor de eventos e de um turismo de negócios que atrai milhares de pessoas e fornece combustível para que muitas atividades desses negócios subsistam. Os congressos, seminários, cursos e que tais, foram massacrados porque tudo se fez online. O que se fará para a retomada do ritmo que sempre caracterizou a capital bandeirante?
  7. Muito embora a vontade de se encontrar e de abandonar a camisa de força do confinamento social possa autorizar a expectativa de um retorno efervescente, é bom contar com o receio compreensível de quem perdeu familiares ou amigos ceifados pela praga e que não se animarão a voltar com o mesmo fervor e entusiasmo a todas as antigas formas de aglomeração. O que surgirá em seu lugar?
  8. Ávidos por convívio ao ar livre e em busca do verde, os paulistas tendem a procurar com mais insistência os parques, as praças, as áreas livres, os bosques urbanos, as reservas particulares de proteção à natureza e essa busca vem a coincidir com a disseminação do conceito ESG, que impõe tratamento conjugado e simultâneo dos aspectos ambientais, sociais e de gestão inteligente da vida pública e da iniciativa privada.
  9. Outra possibilidade será a redução do uso de transportes coletivos em prol da nítida preferência pelos modais individuais motorizados, motos e carros, e pelos modais ativos: usar a bicicleta ou andar a pé. Talvez isso colabore para a redução do caótico trânsito da megalópole e revisão dos vultosos contratos mantidos pela municipalidade com as concessionárias das empresas de ônibus e demais modais coletivos.
  10. Seria importante que se viabilizasse adoção de projetos como o da prefeita de Paris, Anne Hidalgo, que viabilizou o plano “Paris em 15 minutos”, para que todo o deslocamento necessário – residência/trabalho, trabalho/lugar de refeição, trabalho/residência, residência/ lugar de entretenimento, etc, não tome do cidadão mais do que 15 minutos. Paris é uma cidade privilegiada, porque seu metrô atinge todos os espaços da Cidade Luz. São Paulo precisa recuperar o tempo perdido, ampliar sua malha metroviária e banir o automóvel, assim como faz a prefeita de Barcelona, a cidade mais acolhedora e agradável da Europa.

Todos esses pontos precisam ser bem analisados e merecer respostas concretas do município, que tem orçamento para isso, pois detém o terceiro, em volume, desta República. Assim como outras grandes cidades se reinventaram e se anteciparam ao final da crise pandêmica, São Paulo também precisa dar o exemplo e se tornar uma cidade mais humana e menos injusta para com os mais fracos. Se a peste tiver servido para isso, será um ganho para a humanidade.

*José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – gestão 2021 – 2022

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