Cidades inteligentes passam por crises?

Henrique Costa*

20 de agosto de 2021 | 04h30

Depois de pouco mais de um ano desde a aprovação, o Marco do Saneamento já demonstrou potencial para promover mudanças e melhorias em toda a infraestrutura do país. De modo semelhante, a viabilização da privatização da Eletrobrás, que pode render mais de R$ 100 bilhões ao Governo Federal, também é uma notícia que vem em boa hora quando se analisa o rumo do setor no país. Contudo, mesmo com estes avanços, ainda vivemos a maior crise hídrica dos últimos anos.

Por um lado, não corremos risco de apagões como aquele que o Brasil viveu há 20 anos. Isso porque, desde então, investimos em outras fontes de energia, como as termelétricas, que foram acionadas e estão abastecendo grande parte do país, enquanto os níveis dos reservatórios de água não aumentam. Entretanto, o preço é caro, seja para o meio ambiente ou até mesmo para a conta de luz dos brasileiros, que pode sofrer um reajuste médio próximo a 17% de seu valor atual.

De acordo com dados deste ano divulgados pelo Instituto Energia e Mar, a crise hídrica e a alta demanda permitiram uma alteração no regulamento de compra e venda de energia, viabilizando o  funcionamento de termelétricas em tempo integral. No entanto, ao analisar as transações realizadas no dia 25 de junho, o boletim mostra que esta mudança acarreta restrições operacionais quanto às fontes renováveis na matriz elétrica, resultando no aumento das emissões de gases de efeito estufa e na alta do preço da energia elétrica paga pelo consumidor final.

Anteriormente, o regulamento permitia que as termelétricas operassem por no máximo 50% do tempo. A restrição tornava possível a geração térmica a um custo mais baixo, por empregar menos combustível, e representava uma sinalização do planejamento e da inserção desses recursos no sistema.

É consenso que o afrouxamento deste tipo de regulamento agrava ainda mais o compromisso do Brasil com a redução das emissões de gás carbônico na atmosfera. Não obstante, a dependência da matriz energética brasileira das hidrelétricas tampouco faz sentido.

As companhias estão com o alerta de risco ligado. Além das incertezas com relação ao sistema regulatório e as dificuldades em atrair investimentos, o setor de utilities — isto é, os serviços de utilidade pública como energia, saneamento e gás — se preocupa também com outros fatores como o agravamento da crise, as emissões de carbono e o risco de abastecimento.

Caso a noção de gestão de cidades baseada em dados tivesse mais difusão em nosso país haveria uma preocupação muito maior com implementação de ferramentas e dispositivos tecnológicos que viabilizassem o controle de pressão e vazões dos níveis de água e energia, o que abre espaço para a administração correta dos recursos em tempos de crise.

Por esse motivo, a gestão dos recursos hídricos e energéticos é de suma importância neste momento. As smart cities — conceito que associa cidades digitais ao crescimento inteligente, um tipo de desenvolvimento baseado nas tecnologias da informação (TI) e comunicação — oferecem uma opção viável e que pode e deve ser mais utilizada no Brasil.

Por estar fortemente associada à tecnologia, a capacitação de profissionais de TI é essencial para a difusão do conceito de smart cities no Brasil, além é claro da infraestrutura na rede de distribuição e de medidores inteligentes, que estão conectados à internet para realizar a transmissão de dados.  Todavia, a tendência é que esses produtos tornem-se mais difundidos conforme sejam adotados por mais municípios.

Existem exemplos de cidades brasileiras que são consideradas inteligentes como Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR) e Santos, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido em regiões de relevância econômica como, por exemplo, o interior paulista.

Como exemplo, na cidade de Americana (SP), a gestão de recursos hídricos com tecnologia aplicada de forma inteligente já trouxe resultados interessantes e poderia ser replicada em outras regiões do estado. A partir do controle da pressão dos medidores de água, em algumas regiões do município, foi registrado uma redução de 40% nas taxas de desperdícios.

De modo semelhante, o gerenciamento remoto e a medição individualizada de residências também mostram-se promissoras. É o que mostram os dados do programa Conta Justa, que monitora de forma remota o consumo individual de 350 prédios na Grande São Paulo, o que representa cerca de 120 mil pontos.

Esses exemplos demonstram como o controle e o gerenciamento dos dados de consumo em diferentes pontos de uma região podem trazer avanços na economia de água, gás e energia elétrica. O cruzamento da gestão com os dados provenientes da tecnologia da informação torna possível prevenir vazamentos, fraudes ou problemas na rede de distribuição destes recursos, o que, por sua vez, pode reduzir o impacto no bolso do consumidor final.

*Henrique Costa é um gestor formado na Universidade de Harvard e CEO da Accell Solutions

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