Cidade pós-pandemia

Cidade pós-pandemia

José Renato Nalini*

18 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

Acreditemos, de forma otimista, que um dia a Covid19 nos deixe voltar ao convívio palpável a que nem sempre demos o devido valor. Como deverão ser as cidades nessa fase?

Vimos que a miséria mostrou sua face cruel. Semelhantes passando fome, desempregados, abandonados à própria sorte. Famílias destroçadas com a perda de seus mais queridos entes.

Será que teremos a coragem de fazer algo diferente?

A concentração populacional em zonas urbanas mal planejadas deu origem ao caos. É o que se costuma chamar de cidade 3-D: distantes, dispersas e desconexas. Poder-se-ia falar em Cidade 4-D, em contraposição à Quarta Revolução Industrial: apenas acrescentando o “D” de desgraça.

É preciso valer-se de tudo aquilo que a ciência e a tecnologia disponibilizaram para a cidadania. As cidades têm de ser inteligentes. Um Brasil com quase 300 milhões de mobiles mostrou que é possível trabalhar à distância e ensinar as crianças de forma remota. É preciso capacitar os usuários e, mais ainda, os professores. Estes precisam oferecer ao educando mensagens educativas sedutoras, para fomentar a curiosidade, ingrediente sem o qual não haverá ascensão cultural.

Os prefeitos têm uma enorme responsabilidade nesse processo. Precisam atuar junto ao Governo Federal, para que a implementação do 5G atenda às necessidades nacionais e não esbarre no obscurantismo negacionista conspiratório que inebria algumas cabeças toscas.

Com o 5G, a internet poderá ser cem vezes mais veloz do que a conexão 4G. Haverá muito maior estabilidade e todos terão acesso à milagrosa tecnologia da Internet das Coisas, com o diálogo entre os equipamentos, máquinas a funcionar de forma autônoma e eficiente.

É preciso inspirar-se no Oriente Médio, em que o projeto Neom, na Arábia Saudita, se propõe a edificar a cidade mais inteligente do planeta. Ali não haverá um só veículo movido a combustível fóssil. A infraestrutura subterrânea de água, luz, gás e mobilidade, com metrô e hyperloop – cápsulas dentro de tubos de vácuo para transportar passageiros em alta velocidade, propiciarão o futuro como presente viável e tangível.

Perto de Abu Dhabi os Emirados Árabes Unidos finalizam Masdar, cidade para 50 mil habitantes. Será a primeira cidade do mundo com emissão zero de carbono. Reciclagem integral do lixo. Cobertura integral de internet e energia solar. Lusail, no Catar, é uma cidade com 19 distritos, cada qual com um perfil próprio. Residências, prédios comerciais e espaços mistos. Ilha artificial será uma atração turística.

Por que não é possível iniciar aqui no Brasil propostas assim? Ao contrário da dilapidação dos biomas, cada prefeito pode fazer diferente e o que é certo: reflorestar. Recuperar áreas dizimadas. Cobrir de verde e de esperança a sua cidade.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento publicou um guia para a implementação do Desenvolvimento Orientado para o Transporte – DOT. Esse projeto propicia a articulação dos componentes urbanos com os sistemas de mobilidade e procura corrigir a dissociação entre o local da moradia e o do trabalho. A proposta é reverter o modelo 3-D para uma cidade 3-C: compacta, conectada e coordenada. Não custa acrescentar mais um C: Cidade Camarada. Acolhedora, aprazível, cônscia de sua responsabilidade de fazer felizes os seus moradores.

Não é impossível implementar planos de smartcities no Brasil. O primeiro requisito é vontade política. É consciência municipal de que o constituinte não errou ao tornar o município uma entidade federativa. Aponta-se a necessidade de seis linhas estratégicas: 1. Governança superadora de barreiras institucionais e facilitadora da cooperação entre governo e iniciativa privada; 2. Marcos legais viabilizadores; 3. Ferramentas que integrem a gestão do solo ao planejamento espacial e às redes de transporte público; 4. Instrumentos econômicos e fiscais para mobilizar recursos; 5. Mecanismos de integração de políticas setoriais e de desenvolvimento urbano e 6. Verificação e modelagem dos impactos ambientais, sociais e econômicos resultantes da intervenção urbana. Ou seja: levar a sério o conceito ESG, do qual nenhum político que pretenda sobreviver à mudança cultural depois da peste poderá se afastar.

É óbvio que há pequenas municipalidades que vivem de pires na mão, implorando socorro de parte da União e do Estado-membro. Mas uma administração criativa pode explorar a vocação peculiar à cidade e torná-la objeto de admiração por seu engenho empreendedor.

Envolver a juventude num projeto de revalorização da vida urbana é algo que não tem custo. Ao contrário, fará com que os educandos compreendam que a educação existe para resolver problemas, não para fornecer diplomas que depois de nada servirão em sua vida adulta real.

Teremos energia e força para mudar nossa qualidade de vida, a começar dos municípios, ou tudo continuará como sempre foi?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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