Cidade ou coração sensível?

Cidade ou coração sensível?

José Renato Nalini*

22 de junho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

A prova de fogo a que a humanidade foi submetida há quase dois anos vai produzir efeitos prolongados. Enquanto se está a vivenciar algo que nunca se pensou fosse acontecer, não há condições para análise serena. Contudo, é próprio do ser humano vaticinar e exercer o duvidoso ofício da futurologia.

O convívio deverá ser revisitado. O conceito de “smart city”, ou cidade inteligente, poderá receber um transplante e se tornar algo mais amplo: o de “senseable city”, ou cidade sensível. Essa proposta advém da consideração de que, depois de passar por uma tragédia de tamanha dimensão, a humanidade não poderá continuar imersa na insensibilidade e na inércia.

São inúmeras as mensagens que recebemos pelas mídias sociais, recomendando o exame de consciência e uma conversão pessoal para nos tornarmos mais próximos ao semelhante. Mais cuidadosos em relação ao outro. Mais generosos e prudentes em nosso relacionamento com a natureza, tão maltratada nos últimos anos.

Um desses recados virtuais me impressionou. Vem de Leila Ferreira, a quem não conheço, mas aludiu à metáfora da praia lamacenta na Índia, que é o cemitério das embarcações obsoletas. Milhões de indianos vivem desses despojos que Leila compara ao ser humano. Diz ela que se a pandemia não nos tornar mais sensíveis, sairemos dela menores do que à entrada. O pior é que não somos arremessados ao lamaçal da insensibilidade; nós mesmos é que nos arremessamos nele. Não atua para isso qualquer força externa.

O urbanista italiano Carlo Ratti é o proponente de uma ideia de cidade sensível, elaborada no laboratório de inovação que dirige no Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT.

Na sua visão, o trabalho inteligente pode reduzir a demanda por escritórios e obrigar a criação de espaços de trabalho dentro de casa. Lembra o exemplo de Paris, que está implementando a competição “reinventando cidades”, com uma efervescência de inovações, principalmente em relação à mobilidade. Os franceses estão usando mais bicicletas e scooters, tudo compartilhado, pois mais sustentáveis do que os carros particulares e mais saudáveis do que o metrô.

Isso torna um pouco defasado o conceito de cidades inteligentes, que sugere a tecnologia como prioritária, enquanto a cidade sensível a enxerga como mera ferramenta. Um instrumento a ser usado para o avanço da qualidade da vida humana. Estratégias de detecção podem ajudar o ambiente urbano a responder às necessidades dos cidadãos em tempo real. A cidade, espaço ocupado pela maioria da população planetária, tem de ser mais acolhedora, mais amiga, ou seja, mais sensível.

Essa linha de pensamento é até mais importante para o Brasil, que tem uma legião de invisíveis, inteiramente excluídos dos benefícios da cidadania. Criaturas desprovidas de água, serviço de esgotamento urbano, saúde, educação, transporte, trabalho e moradia. Embora, como aliás acontece em quase todo o mundo, utilizando smartphones. Somos o país de 300 milhões de mobiles, com 213 milhões de habitantes.

O acesso às tecnologias de ponta deve acelerar a implementação de projetos que tornem a vida do indivíduo mais digna, porque facilitada. Assim como a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, conseguiu fazer com o seu plano “cidade de 15 minutos”, que reduz o tempo de deslocamento. É uma nova forma de encarar a micromobilidade e de evitar a necessidade de vencer longas distâncias para se locomover da residência ao local de trabalho.

Perfeitamente possível sincronizar os vários modais de transporte, para que uma plataforma digital agregue dados sobre ônibus, metrô, trens e outros veículos e forneça ao usuário tais informações em tempo real.

Os municípios brasileiros, promovidos à categoria de entidades da federação, têm de fazer valer essa prerrogativa. Precisam estimular seus jovens a formularem propostas inovadoras para que a vida local se torne cada vez mais agradável e prazerosa.

Cada cidade tem uma vocação específica e uma saudável emulação pode fazer com que ela receba um impulso que resultará em benfazejo incremento ao seu progresso. Tudo sob a égide da cultura ESG, para que as questões ambientais, sociais e de governança mereçam a devida e imprescindível atenção, conjunta e simultaneamente

Todavia, o produto dessa nova estratégia só será efetivamente profícuo, se houver investimento na educação e, sobretudo, no cultivo da ética. Este o ingrediente capaz de inseminar sensibilidade na mente das criaturas racionais. Uma cidade só será sensível de fato, se habitada por corações realmente sensíveis.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – gestão – 2021- 2022

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