Cidade antifrágil: uma perspectiva para os lugares num futuro de incertezas

Cidade antifrágil: uma perspectiva para os lugares num futuro de incertezas

Caio Esteves*

13 de março de 2021 | 04h30

Caio Esteves. FOTO: DIVULGAÇÃO

Diante de tantas mudanças e acelerações causadas pela pandemia que assola o mundo desde 2020, uma questão se faz presente: como as cidades se comportarão frente a futuras crises sanitárias e econômicas?

Há muito falamos sobre as cidades do futuro, traduzidas hoje, a grosso modo, como cidades inteligentes, que por sua vez, o senso comum, traduz como cidades tecnológicas, ou seja, para a grande maioria, tecnologia e inteligência serão os grandes responsáveis pelo futuro das cidades. Quanto a tecnologia, embora ela seja decisiva por si só, já não podemos mais nos dissociarmos dela, a inteligência, por sua vez, carece de explicação, afinal de qual inteligência estamos falando?

Entendendo o coronaceno e seus prefixos descritivos

Em uma comparação linguística, podemos imaginar que “des” é o prefixo pré-pandêmico, alcançado entre outros, por dois ensinamentos da recente aceleração: desterritorialização e desmaterialização, ao mesmo tempo causa e consequência da tecnologia. O lugar físico onde moramos e trabalhamos tem menos importância, não precisamos mais de tantos deslocamentos, a tecnologia da comunicação é capaz de, para quem pode, prover quase tudo, num mundo de portas fechadas e ruas vazias. Morar no centro de São Paulo ou em Chapurí quase não faz diferença, basta termos eletricidade, sinal de internet e cobertura dos correios. Nosso trabalho se desmaterializou, não precisamos mais de escritórios e hoje já é socialmente aceita a interrupção momentânea de uma reunião para a solução de algum problema doméstico.

O prefixo pós-pandemia, por sua vez, é o “co”. Ele se relaciona com a ideia de coletivo, colaborativo, cocriativo, e é justamente aqui que amparo minha sugestão para o tipo de inteligência necessária ao futuro das cidades, algo como uma “co-inteligência”.

A Antifragilidade

A ideia de uma “co-cidade” está diretamente relacionada com o conceito que venho desenvolvendo nos últimos dois anos e que finalmente foi publicado em março de 2021. A cidade antifrágil nasce do questionamento sobre o conceito desenvolvido por Nassim Taleb em seu bestseller “Antifragilidade” e sua possível utilização na criação de cidades menos sujeitas a crises futuras.

Antifragilidade é o oposto de fragilidade e, segundo Taleb, é algo que se beneficia com a incerteza, ou seja.

“Quando você está frágil, depende que as coisas sigam o exato curso planejado, com um mínimo de desvio possível, pois os desvios são mais prejudiciais do que úteis. É por isso que o frágil precisa ser muito preditivo em sua abordagem, e, inversamente, os sistemas preditivos causam fragilidade. Quando você quer desvios, e não se preocupa com a possível dispersão de resultados que o futuro pode trazer, já que a maioria será útil, você é antifrágil. (TALEB, 2015)

Uma das partes mais importantes do conceito de Taleb é a comparação do que ele chamaria de Tríade: fragilidade, resiliência, antifragilidade.

A fragilidade sofre (e eventualmente morre) com a incerteza, com os erros e desvios, e é comparada com o mito da “espada de Dâmocles”, onde nosso protagonista troca de lugar com Dionísio, monarca de Siracusa, cidade mais rica da Scicília, e pode usufruir por um dia, de tudo que lhe era oferecido. Em meio à felicidade que agora ele facilmente aproveitava, recostou-se nas confortáveis almofadas e olhou pra cima e percebeu uma espada apontada em sua direção, presa por um fio da crina de um cavalo, ou seja, tudo parece lindo, mas tudo pode acabar a qualquer momento.

A resiliência, por sua vez, é ligada aquilo que não sofre com a diversidade, e, após enfrentá-la, retorna a sua forma original, ou seja, não se prejudica, mas também não se beneficia com a incerteza. Nessa parte da Tríade, a metáfora usada é o mito egípcio da Fênix, ave que ao morrer era devorada por chamas e delas nascia uma nova Fênix, igual a anterior.

Já a antifragilidade, que por sua vez se beneficia da “desordem” é comparada ao mito grego da Hidra de Lerna, monstro com várias cabeças (de 7 a 10.000 dependendo do autor), enfrentado por Héracles (Hércules na mitologia romana) que ao ter uma de suas cabeças cortada, automaticamente duas novas cabeças nasciam no lugar, ou seja, ela se aproveitava da incerteza, e crescia com ela.

A Cidade Antifrágil

A cidade antifrágil parte de conceitos relativamente simples como identidade do lugar, resultante da identidade dos indivíduos que se relacionam com o lugar aliada a vocação do lugar, resultado do saber fazer e cultura locais potencializado por um número maior de opções de vetores econômicos, que originalmente Taleb chamou de opcionalidade.

Em uma equação seria algo como:

Identidade + Vocação X Opcionalidade = Cidade Antifrágil

A opcionalidade é a capacidade de ficarmos presos a um só caminho, herméticos, detroitianos. Não é raro nos deparamos com lugares – com apenas uma única vocação definida que, se antes da pandemia não acreditavam que precisavam rever seus conceitos, agora tentam desesperadamente anotar a placa do caminhão que os atropelou, exemplos negativos nunca faltaram para ilustrar esse fenômeno. Pensem por exemplo em qualquer cidade que dependia exclusivamente do turismo por ser considerada até então um paraíso.

Assim como Detroit, que jamais imaginou que a indústria automotiva pudesse sofrer algum tipo de crise, vários outros lugares tem a mesma ilusão da certeza, da perpetuidade das coisas. Mas como prever o que pode acontecer? Mais uma vez aprendemos da maneira mais difícil possível, entendemos que embora existam previsões assertivas, não damos lá muita importância a elas e, claro, escancarou-se por sua vez qualquer modelo de previsibilidade de mercado, ou seja, confiamos na nossa suposta capacidade de prever o futuro ao mesmo tempo que ignoramos previsões acadêmicas fundamentadas e alertas anteriores.

Mas se é difícil prever o que acontecerá, é essencial criarmos mecanismos e um mindset antifrágil capaz de adequar-se de forma rápida a novas realidades impostas.

Diante da equação inicial da cidade antifrágil, chegamos a mais nove dimensões, como mostra o gráfico abaixo:

O mais importante é entendermos que, embora a tecnologia esteja presente de forma indiscutível e essencial, a cidade antifrágil ainda gira em torno das pessoas, da comunidade, de forma transparente e coletiva, afinal, repetindo o mantra que levo tatuado no braço esquerdo: “O que é a cidade senão as pessoas?”

Fontes:
ESTEVES, Caio. Cidade Antifrágil. Realejo. Santos, 2021
TALEB,N.N. Antifrágil. Kindle Edition, 2015

*Caio Esteves, managing patner of placemaking na Bloom Consulting. Foi coordenador da pós-graduação em Branding e Place Branding na Istituto Europeo di Design São Paulo (IED SP) e Faculdades Integradas Rio Branco. É também autor do livro Place Branding, coautor da edição em português do premiado Imaginative Communities, com Robert Govers e autor de Cidade Antifrágil, lançado pela Editora Realejo

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