Chuva danificou ‘coincidentemente’ registros do Palácio Laranjeiras

Chuva danificou ‘coincidentemente’ registros do Palácio Laranjeiras

Ao acusar o ex-procurador-geral de Justiça do Rio Cláudio Lopes, atual chefe do Ministério Público relata que anotações de entrada e saída da residência oficial do Governo do Rio, entre 2009 e 2012, que poderiam comprovar encontros de propina foram afetados por ‘vazamento de água provocado pelas chuvas’

Julia Affonso

13 Novembro 2018 | 05h30

Ao pedir a prisão do ex-procurador-geral de Justiça do Rio Cláudio Lopes, o Ministério Público do Estado relatou que os registros de entrada e de saída de veículos visitantes do Palácio Laranjeiras, entre os anos de 2009 e 2012, ‘foram coincidentemente deteriorados por chuvas’. Na avaliação da Promotoria, os documentos ‘poderiam comprovar’ encontros de propina entre o ex-secretário do Governo do Rio Wilson Carlos, braço direito e amigo de infância do ex-governador Sérgio Cabral (MDB), e o então procurador-geral.

Cláudio Lopes foi preso no dia 8 por ordem do Tribunal de Justiça do Rio.

Em depoimento aos investigadores, o operador Sérgio de Castro Oliveira, o ‘Serjão’, relatou que Wilson Carlos ‘reclamava de ter que acordar cedo só para ir ao Palácio Laranjeiras entregar o dinheiro ao Cláudio Lopes’. Laranjeiras é a residência oficial do chefe do Executivo fluminense. De acordo com ‘Serjão’, os encontros entre Wilson Carlos e Cláudio Lopes ‘duravam, no máximo, 20 minutos’.

No pedido de prisão do ex-procurador-geral, o atual chefe em exercício do Ministério Público do Rio, Ricardo Ribeiro Martins, narrou ao Tribunal de Justiça um episódio sobre ‘perecimento dos controles de entrada e saída de pessoas e veículos do Palácio Laranjeiras’.

Martins afirmou que ‘apesar da insistência do Ministério Público em obter tais registros, os ofícios foram respondidos com a remessa de documentação diversa daquela que foi requisitada’.

O Governo informou à Promotoria que ‘o acesso de veículos no Palácio Laranjeiras era submetido ao controle da Guarda Palaciana’.

Segundo ofício do Governo do Rio, o registro era ‘realizado de forma manuscrita e somente sendo anotados os dados dos respectivos motoristas, visto que previamente eram avisados via contato telefônico ou centrex sobre a autorização prévia’.

Ricardo Martins relatou que ‘agentes da Subsecretaria Militar realizaram diligências internas com a finalidade de localizar a integralidade dos registros de entrada e saída de veículos do Palácio Laranjeiras, não obtendo êxito’.

“Em documento intitulado ‘Termo de Diligência’, a Subsecretaria Militar informou que: não foram localizados mais documentos dos que haviam sido enviados anteriormente ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, uma vez que, em face de vazamento de água provocado pelas chuvas, deteriorou parte dos documentos arquivados”, narrou o procurador-geral de Justiça.

“Conclui-se, portanto, que justamente os registros de entrada e saída de veículos visitantes do Palácio Laranjeiras, entre os anos de 2009 e 2012, que poderiam comprovar os encontros escusos entre denunciados Wilson Carlos e Cláudio Lopes para pagamento de propina, foram ‘coincidentemente’ deteriorados por chuvas.”

Encontros em Laranjeiras

Em depoimento, segundo o Ministério Público, um motorista que trabalhou para Cláudio Lopes ‘durante uma década’ confirmou que os encontros no Palácio Laranjeiras duravam ‘não mais do que 15 minutos’. Para o procurador-geral de Justiça, o ‘período é absolutamente compatível com quem apenas se encontra para entregar e receber propina e não para tratar de assuntos institucionais’.

“Ia no mínimo uma vez por mês, tanto no Palácio Guabanara, com no Laranjeiras; que normalmente o Dr. Cláudio Lopes andava com uma maleta de couro; que ele tem o costume de andar com essa maleta; (…) que as visitas no Palácio Laranjeiras eram rápidas e duravam no máximo de 15 minutos; que também era assim no Palácio Guanabara”, informa o depoimento do motorista.

Quem são os acusados

Sérgio Cabral, Cláudio Lopes, Wilson Carlos e ‘Serjão’ foram denunciados, no início de outubro, pelo procurador-geral de Justiça. O ex-governador do Rio, Wilson Carlos e ‘Serjão’ são acusados de corrupção ativa. Cláudio Lopes foi denunciado por associação criminosa, corrupção passiva e quebra de sigilo funcional.

Cláudio Lopes ingressou no Ministério Público do Estado do Rio em 1987. Passou pelas comarcas de Campos dos Goytacazes e São João da Barra, e em janeiro de 1995 assumiu a Promotoria de Justiça junto à 36.ª Vara Criminal do Rio, onde permaneceu até julho de 2001. Em seguida foi promovido a procurador de Justiça. No final de 2008 venceu a eleição para procurador-geral de Justiça no biênio 2009-2011, tendo obtido 321 votos, apenas quatro a mais que o segundo colocado, Eduardo Gussem.

Disputou novamente a eleição para o biênio seguinte e foi reconduzido ao cargo com 483 dos 850 votos possíveis. Vencer a eleição não é garantia de ocupar o cargo, já que a nomeação cabe ao governador do Estado, que pode escolher qualquer nome entre os três primeiros colocados na eleição. Então governador, nas duas ocasiões Cabral respeitou a tradição e nomeou o mais votado.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO PROCURADOR

A reportagem está tentando localizar a defesa de Claudio Lopes. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, O GOVERNO DO RIO

O Governo do Estado, através da Subsecretaria Militar da Casa Civil, já respondeu ao Ministério Público na ocasião.

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