Chorar pelos que ainda não morreram

Chorar pelos que ainda não morreram

José Renato Nalini*

17 de junho de 2021 | 15h25

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Choramos pelos nossos mortos. Faz sentido chorar pelos que ainda não morreram? Para o filósofo alemão Günther Anders (1922 -1992) parece fazer. Ele é considerado por Jean-Piere Dupuy, o mais radical dentre os pensadores sobre as grandes catástrofes do século XX. Não é tão famoso quanto seus colegas que também foram alunos de Heidegger : Hans Jonas e Hannah Arendt, de quem foi o primeiro marido.

Ele ficou famoso por frequentemente narrar uma parábola, cujo personagem era Noé. Aquele mesmo o, da arca. Noé se cansara de ser o profeta de uma catástrofe que não acontecia e que ninguém levava a sério. Então vestiu-se com andrajos e espargiu cinzas sobre a cabeça, como costumavam fazer os que perdiam um filho querido. Desfilou assim pela cidade e logo congregou pequena multidão ao seu redor. Perguntaram-lhe quem havia morrido e ele respondeu que os mortos eram os que o ouviam.

Quando quiseram saber em que momento ocorrera a morte, ele disse: amanhã. Ficaram confusos com a resposta e ele continuou: “Depois de amanhã o dilúvio será alguma coisa que terá sido. E quando o dilúvio tiver sido, tudo o que é não terá jamais existido. Ninguém lembrará, porque não existirá mais ninguém. E então não haverá diferença entre os mortos e os que choram”.

Noé, com sua narrativa, mostrou que no discurso é possível inverter o tempo, de maneira a chorar hoje pelos mortos de amanhã. Depois dessa prédica, voltou para a sua casa e à noite foi procurado por um carpinteiro disposto a ajudar a construir a arca, para que o vaticínio não viesse a ocorrer. Em seguida outros também o abordaram, com idêntico propósito.

Qual a moral dessa parábola de Anders? Qual a sua atualidade?

Há muitas décadas, os cientistas começaram a anunciar os perigos do aquecimento global. Pregaram no deserto. Muitos interesses contrataram estudos para contrariá-los. É praxe do capital recrutar talentos que contradizem suas próprias doutrinas e teorias. As campanhas de desinformação funcionam melhor quando há dinheiro em jogo. Os céticos retrucaram que as previsões da ciência são cobertas por ponderável incerteza. Todavia, grande parte da incerteza resulta da inércia em não se tomar as providências necessárias para evitar a emissão de gases do efeito estufa ou para ao menos reduzi-las.

Essa postura de incredulidade costuma se repetir na história. Os perseguidos pelo nazismo, mesmo já no cais de desembarque de Auschwitz, não acreditavam no Holocausto. Atribui-se a Primo Levi citar o antigo adágio alemão: “as coisas cuja existência parece moralmente impossível, não podem existir”.

Entretanto elas existem e o extermínio da floresta amazônica prossegue, nada obstante a grita Internacional, a advertência de Joe Biden, o aviso dos investidores estrangeiros que não trarão os seus recursos para esta pátria tão deles necessitada.

Assim como continua a existir quem não acredite em vacina, em uso de máscaras, mas se convenceu de que a Terra é plana. Tem absoluta confiança na sua incolumidade física, daí desnecessitar da imunização.  Pensa que a vacina pode alterar o seu DNA ou conter um chip que o torne um abduzido, teleguiado pelo arbítrio da nação que produziu o imunizante.

Para estes – e não são poucos – não existe mudança climática. O homem não influencia a natureza, entidade submissa à vontade dos seres racionais. O planeta sempre enfrentou a passagem dos tempos, superando as diversas eras e idades. Ridiculariza-se Greta Thunberg e milita-se contra a demarcação de terras indígenas. Chega-se a apregoar que o Brasil tem mais cobertura vegetal do que a soma aritmética de todos os acres que formam a superfície do seu território.

Não prestaram atenção ao que Al Gore colocou no final do seu filme “Uma Verdade Inconveniente”: “As gerações futuras terão, sem dúvida, de se colocar a seguinte questão: em que pensavam então nossos pais? porque não acordaram enquanto ainda podiam fazê-lo?”.

A continuar nesse ritmo a insanidade insensata e a inclemente crueldade humana em relação ao ambiente, questionável a certeza da existência de gerações no porvir. De qualquer forma, haverá tempo para que os sobreviventes perquiram sobre a responsabilidade resultante de ação ou de omissão, relativa às mortes causadas pela pandemia. Desgraça que, é lamentável, longe está de vir a ser debelada.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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