China 2018: mais pontes, menos muros

Humberto Mota Filho*

28 Novembro 2018 | 10h00

Seja às margens do Rio Yangtze, no Distrito Financeiro de Shanghai, a poucos metros do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, seja em Pudong, no centro de convenções do Hotel Manju, quando do Seminário sobre Promoção Comercial para os Países de Língua Portuguesa, seja em eventos da EXPO 2018, a maior feira de importação do mundo, ou na Escola de Negócios de Shanghai, os primeiros quinzes dias de novembro me proporcionaram uma experiência única e intensa sobre os destinos da China e os destinos da Governança Global daqui para a frente, no âmbito do programa de formação executiva do Ministério de Comércio Chinês. Debatemos intensamente as reformas econômicas e a abertura comercial da China nos últimos 40 anos, com lideranças de vários países e professores, empresários e autoridades que viveram o Grande Salto para a Frente, a Reforma Cultural e a ascensão do dragão chines ao nível de superpotência econômica.

Analisamos os erros e acertos de políticas públicas e de visões de mundo e concluímos, em conjunto, que o caminho para o desenvolvimento dos povos e dos seus países se apoia em mais pontes e não em mais muros, em mais governança global, mais generosidade e mais tolerância que se traduzem em mais livre comércio, mais abertura comercial e mais integração regional e mundial. Compartilho essa experiência aqui, pois ela reforça minha convicção de que a construção desse caminho demanda a repetição contínua de iniciativas como essas, dentro de um diálogo respeitoso, sincero e imbuído de boa vontade e de espirito pacífico, capaz de criar e fortalecer, ao longo do tempo, aos laços de confiança entre governos, empresas e povos, necessários para pavimentar o caminho do desenvolvimento sustentável global, no qual cada país deve achar a trilha mais apropriada para si, por meio de inovações institucionais e reformas, de preferência sem atalhos mágicos.

Para os próprios chineses não é aconselhável tentar replicar sua receita de desenvolvimento acelerado em outros países, a qual eles próprios já estão revisando, em busca de um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável. Nesse novo caminho, a nova estratégia de promoção comercial chinesa é sintetizada na máxima Um cinturão, uma rota, que reconhece a tendência da interdependência global nas relações entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e traça seis corredores de cooperação econômica internacional, como prioritários para eles, a fim de gerar um novo ciclo de desenvolvimento sustentável para sua economia. Com base nessa estratégia, a China declara reconhecer sua maior responsabilidade pela governança global e, nesse sentido, pretende intensificar sua presença nos fóruns de cooperação global, influir mais no sistema internacional de decisões, investir fortemente nos seis corredores de cooperação econômica da rota da seda e aumentar as importações como política nacional de integração com os países dessa rota.

Tendo em conta os interesses brasileiros, aqui em nosso país há quem veja essa estratégia como mais uma ameaça imperialista, agora vindo da Ásia, ou apenas como simples retórica para avançar os interesses chineses, ou inversamente, quem queira se apegar ao nosso saldo favorável nas trocas comerciais com os chineses como tábua de salvação para nossos problemas econômicos, a justificar uma adesão acrítica aos interesses chineses. Creio que ambos os lados são simplificações que não favorecem a correta compreensão desse novo cenário. Talvez uma narrativa mais factível e madura seja a aceitação de que nossas relações com a China evolvem tanto perdas quanto ganhos, para ambos os lados, mas que também está em nossas mãos manter e reforçar uma relação comercial e estratégica de interdependência harmoniosa para ambos os lados. Assim, Brasil e China podem e devem cooperar para convergir, sempre que possível, suas estratégias e políticas públicas, na busca de uma governança global mais sustentável.

*Humberto Mota Filho, advogado, cientista político e presidente do Conselho de Governança e Compliance da ACRJ

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