Chica da Silva: romance de uma vida

Chica da Silva: romance de uma vida

Uma história que atravessou o tempo e os oceanos

Joyce Ribeiro*

27 de junho de 2021 | 06h00

Joyce Ribeiro. Foto: Divulgação

Direito a opinião, direito ao amor, crença na transformação e no pertencimento. Questões que nos parecem atuais, mas na verdade sempre estiveram presentes, pulsantes nas mentes de mulheres que foram silenciadas e encontraram nas amarras da opressão o freio para seus desejos pelo fim das injustiças e das desigualdades. Algumas ousaram externar, gritar por mudanças e foram seguidas por muitas, por multidões. A história nos revela um caminho de avanços em torno das demandas femininas, a cada momento histórico várias lutas, muitos passos adiante e assim seguimos sem dar espaço para retrocessos. 

No século XVIII, uma mulher deu o que falar e sua história é contada e lembrada até hoje. Nascida no cativeiro cresceu escravizada e reuniu forças para se tornar uma figura importante, mitificada, uma personalidade forte que ecoou sua potência no Brasil e em Portugal, transcendendo sua ancestralidade africana da Costa da Mina, como a pesquisa histórica mais aprofundada veio nos mostrar. Essa mulher é Chica da Silva.

A vida de Chica foi recontada em diversas obras ficcionais, muitas vezes focadas numa versão excêntrica, escandalosa e amoral.  A mulher que investiguei a fundo tem outros contornos que, aos poucos, vão sendo revelados. Ao desbravar novos caminhos, rompeu a barreira social que a submeteria a uma existência anônima e sofrida, como a de todos os negros escravizados, que tinham como única função o trabalho exaustivo e desumano na mineração e na agricultura.

A vida de Chica da Silva ainda hoje gera especulações que atravessaram séculos e permaneceram instigantes. Isto porque Chica, filha de um português branco e uma negra africana, conquistou a alforria ao se relacionar com um dos homens mais ricos da época, o contratador de diamantes João Fernandes. A ascensão social e a influência lhe proporcionaram uma vida confortável aos moldes das famílias brancas mais abastadas. 

Juntos, o casal teve 13 filhos em um relacionamento que durou cerca de duas décadas. Em 1770, João Fernandes retorna à Portugal devido a uma disputa por herança e por lá fica até morrer em 1776. Longe do amado, Chica da Silva usufrui do prestígio, das posses, e acumula as pressões enfrentadas por uma mulher alforriada, rica, sozinha, mas que não se cala e não tem medo nem sequer vocação para lamentações. 

Ao nos voltarmos para os dias de hoje, vivemos batalhas, nos fortalecemos, mas a sensação de que ainda há muito a ser feito não diminui e o sinal de alerta está sempre piscando. Mudar dá trabalho, ter coragem de se aceitar por completo também, e nisso Chica da Silva nos trouxe um belo exemplo, acreditou em sua essência, se alimentou de coragem nos piores momentos, mesmo quando a personalidade forte lhe rendia a pior fama, o pior tratamento.   

Temos muito de Chica da Silva nas mulheres que nos transformamos desde o século XVIII até aqui, com mudanças expressivas que foram sonhadas e construídas ao longo dos séculos. Nesta obra, os contornos desconhecidos de Chica da Silva levam o leitor a entender e valorizar muitas das conquistas e das batalhas que ainda estão em nossa rotina de mulheres atuais, que de maneiras diferentes, já estavam nas lutas diárias da desbravadora Chica da Silva, a negra com origem na Costa da Mina, que ao nascer escravizada no Brasil ousou acreditar na força de sua voz, na força do amor e no legado de transformação que deixaria ao não desistir do potencial de sua família.

*Joyce Ribeiro, é jornalista formada pela FIAM, pós-graduada em jornalismo econômico e político pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

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