Chefe da PF no Amazonas que acusa Ricardo Salles mira rota do tráfico de madeira e organizações criminosas

Chefe da PF no Amazonas que acusa Ricardo Salles mira rota do tráfico de madeira e organizações criminosas

Rumos do inquérito acabaram chegando em um outro patamar, quando a PF identificou que o setor madeireiro 'iniciou a formação de parcerias com integrantes do Poder Executivo', em especial o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e o senador Telmário Motta

Pepita Ortega e Fausto Macedo

16 de abril de 2021 | 11h53

Foto: Reprodução/MPF

Quando instaurou o inquérito da Operação Handroanthus GLO em dezembro de 2020, o chefe da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva já apontava a devastação de ‘enormes áreas de florestas’, uma possível ‘alteração da rota do tráfico de madeira’ no Estado e a suspeita de uma organização criminosa que atuasse concomitantemente em vários Estados da Amazônia, especializada na ‘atividade ilícita complexa de extração ilegal de madeira’.

A portaria assinada por Saravia também destacou que a consolidação das situações em um único procedimento investigativo poderia levar a uma otimização das apurações, mas os rumos do inquérito acabaram chegando em um outro patamar quando a PF identificou que o setor madeireiro ‘iniciou a formação de parcerias com integrantes do Poder Executivo’, em especial o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles e o senador Telmário Motta.

Foi nesse contexto que, ao identificar ‘fatos gravíssimos’ envolvendo pessoas com foro por prerrogativa de função, como relatou ao Estadão, Saraiva enviou uma notícia-crime ao Supremo Tribunal Federal nesta quarta, 14, imputando a Salles os supostos crimes de obstrução de investigação ambiental, advocacia administrativa e organização criminosa.

No mesmo dia em que o documento foi encaminhado ao STF, o diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Maiurino, decidiu substituir Saraiva. Em nota, a corporação diz que o delegado foi comunicado da substituição no decorrer da tarde. O delegado diz que recebeu a ligação de um ‘amigo’ sobre uma possível adidância e alega que ‘não foi comunicado’ sobre a troca: “Só tem duas formas de me comunicar oficialmente – ou meu chefe me liga, pelo principio da hierarquia, que é o diretor-geral, ou publicação no Diário Oficial”.

Na portaria de instauração da Operação Handroanthus GLO, Saraiva apontou um objetivo claro: ‘desbaratar organização criminosa especializada no tráfico nacional e internacional de madeira’. O documento cita a apreensão de 619,1668 m³ de madeira em uma embarcação nas proximidades de de Juruti, no Pará, em 07 de dezembro de 2020.

No barco havia maquinário usualmente utilizado na atividade madeireira ilegal e quando a equipe policial questionou o comandante e os tripulantes sobre a origem da madeira, houve contradições. Ainda segundo a portaria, o valor a se apurar era de R$ 7,6 bilhões.

No dia seguinte à instauração da investigação, a PF divulgou a ‘apreensão histórica’ de madeira, informando que a operação recolheu mais de 131 mil metros cúbicos de madeiras em tora na divida do Pará e Amazonas. A corporação conseguiu conter mais dez embarcações e quatro empurradores que utilizavam o Rio Mamuru para escoamento de carga ilegal.

Também no âmbito das apurações, em janeiro, representantes do Ministério Público Federal, da PF e da Receita nos Estados Unidos começaram a articular com autoridades norte-americanas ações para fechar o cerco contra empresas especializadas na exportação de madeira extraída ilegalmente no Brasil.

Agora, quatro meses depois do início das investigações, a PF aponta que, mesmo com a ‘farta investigação’ conduzida pela corporação, ‘órgão de segurança pública vocacionado produzir investigações imparciais’, Salles ‘resolveu apoiar os alvos’ da Operação Handroanthus GLO, incluindo uma empresa que tem 20 autos de infração ambiental registrados, com multas que chegam a mais de R$ 8,3 milhões.

“Além de omitir-se de exercer seu poder de polícia ambiental, dificultando ação de fiscalização ambiental, patrocina diretamente interesses privados (de madeireiros investigados) e ilegítimos no âmbito da Administração Pública”, diz a PF sobre o ministro.

Segundo a corporação, ao invés de apoiar a investigação da PF, ‘por força da Constituição Federal’, Salles ‘sinalizou sua preferência ao lado de empresários responsáveis por grave degradação ambiental’.

A notícia-crime registra ainda que o ministro do Meio Ambiente foi um ‘verdadeiro advogado da causa madeireira’ e tem uma ‘ predileção injustificada a pouco mais de uma dezena de investigados em detrimento da comunidade local, regional, nacional e internacional (todas potenciais vítimas do desmatamento ilegal e implacável da Amazônia)’.

COM A PALAVRA, O MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE

Quando a notícia-crime da PF no Amazonas foi enviada ao STF, a pasta afirmou: “A resposta será dada em juízo.”

COM A PALAVRA, TELMÁRIO MOTA

Quando a notícia-crime da PF no Amazonas foi enviada ao STF, o senador afirmou: “O Delegado xiita, Alexandre Saraiva, mais uma vez busca os holofotes com uma notícia-crime patética, sem fundamento e elaborada apenas para ganhar espaço na mídia e nas redes sociais. A verdade é que, o delegado é um covarde que pratica autoritarismo e não tem coragem de debater com o Ministério do Meio Ambiente e da Justiça, um protocolo para regulamentar o setor madeireiro. O delegado cria suas próprias leis criminalizando todo um setor, sem distinção de quem está dentro da legalidade ou não, causando assim, a falência de diversas empresas e deixando mais de 15 mil trabalhadores desempregados, apenas em Roraima, numa época de crise mundial. Ressalto que em momento algum pratiquei as condutas descritas. Como parlamentar, apenas denunciei os procedimentos ilegais cometidos pelo delegado, que sistematicamente utiliza da PF para sua própria promoção pessoal. Estou convicto que a notícia-crime será arquivada de plano pelo MPF. Continuarei lutando contra os abusos de autoridade cometidos pelo Sr. Alexandre Saraiva, como também pelo emprego de todos aqueles que trabalham dentro da legalidade”.

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