Chalés do novo capitalismo

Chalés do novo capitalismo

Cassio Grinberg*

01 Dezembro 2018 | 05h00

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Alex Bogusky, um dos maiores expoentes da propaganda americana, criou, em 2010, a iniciativa The Fearless Cottage: frustrado com o que considerava ser a fratura de alicerces do capitalismo, escapou para a cidade do Boulder, Colorado, afastando-se por 8 anos da atividade que exercia em agência — até retomá-la em agosto deste ano.

The Fearless Cottage, o “chalé destemido”, abriga uma marca colaborativa denominada Common, plataforma de conteúdo e de produtos sustentáveis (tal como a bicicleta de bambu) co-criados entre empresários e consumidores e com parte da receita revertida como forma de, ao mesmo tempo, melhorar a preservação de recursos e atuar contra o fato de que muito pouco do valor financeiro das marcas — inclusive marcas “progressivas” como Google e Disney —, se traduzem em reais benefícios à sociedade.

Se lemos os parágrafos acima enquadrando a iniciativa como “crise de socialismo”, não apenas nos enganamos: cometemos, em efeito cascata, o mesmo equívoco de muitas grandes empresas e, por consequência, de grandes economias: fugir da verdade como os sedentários fogem dos tênis de corrida porque, mais fácil do que aceitar críticas, é estereotipar opiniões contrárias — em que pese com isso estagnarmos não apenas no aprendizado e no crescimento, mas na própria chance de sobrevivência de um sistema que precisa se renovar.

É possível às grandes marcas descolar o propósito do balcão do discurso, embora tal movimento não seja nem fácil, nem rápido, nem barato — e por isso nem um pouco popular. Mas já vemos bons exemplos de propósito aplicado: em recente entrevista ao editor-chefe da revista Wired, o CEO da LinkedIn, Jeff Weiner, argumenta que a razão da existência da rede é dar oportunidades reais de conexão às 3 bilhões de pessoas que compõem a força global de trabalho.

Separando medidas superficiais como salas de inovação coloridas ou políticas de diversidade na contratação de pessoas (que, dentro dessas salas, ainda precisam “dar explicações”), o que passamos felizmente a perceber são grandes empresas movendo-se do estado da inação para o estágio da pergunta: ‘como posso me engajar com profundidade nessa conversa positiva?’ O que, por si só, significa muito.

*Cassio Grinberg, economista e consultor de empresas

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