Cervejaria Itaipava fazia papel de ‘doleiro’ para a Odebrecht, dizem delatores

Cervejaria Itaipava fazia papel de ‘doleiro’ para a Odebrecht, dizem delatores

Grupo Petrópolis teria vendido, em 2007 e 2008, o equivalente a US$ 98 milhões em reais para o Setor de Operações Estruturadas fazer entregas de dinheiro vivo, no Rio e em São Paulo; valores eram compensados com transferências em conta secreta, no Caribe

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Luiz Vassallo e Julia Affonso

27 de abril de 2017 | 05h00

Olivio rodrigues junior

Olívio Rodrigues Junior. Foto: Reprodução

Laranja da Odebrecht para abertura e controle de contas secretas em nome de empresas offshores, Olívio Rodrigues Júnior afirmou à força-tarefa da Operação Lava Jato que o Grupo Petrópolis cumpriu papel de “doleiro”, vendendo reais no Brasil em troca de dólares recebidos no exterior, para a máquina de fazer propinas comandada por Marcelo Bahia Odebrecht, o Setor de Operações Estruturadas.

Um dos 78 nomes da mega delação premiada da Odebrecht, Olívio revelou que, em 2007 e 2008, os donos da Cervejaria Itaipava forneceram o equivalente a US$ 98 milhões em dinheiro vivo, no Brasil. O valor, em reais, foi distribuído no Rio e em São Paulo pelo departamento da propinas da Odebrecht, para agentes públicos e políticos.

OLIVIO CONTA LEGACY

“Tenho conhecimento de uma conta no exterior de nome Legacy aberta junto ao Banco AOB”, relatou o delator, aos procuradores da Lava Jato. “Na conta, foi feita a compensação de valores já disponibilizados em reais no Brasil. Em 2007 foi pago nesta conta US$ 25,5 milhões e em 2008 cerca de US$ 73 milhões.”

O AOB era o Antigua Overseas Bank, na ilha de Antígua e Barbuda, nos mares do Caribe. A instituição bancária era usada pelo Grupo Petrópolis e pela Odebrecht para movimentação ilegal de dinheiro, contam os delatores.

Dólar-cabo. A venda de reais para a Odebrecht e a compensação com depósitos no exterior é uma típica operação de dólar-cabo, velho sistema utilizado por doleiros, na base da confiança, para transferências de recursos à margem do sistema financeiro oficial.

Olívio contou que foi apresentado para o Grupo Petrópolis em 2006, por dois executivos do Trade Bank, que passaram para o AOB. Ex-operador da corretora Graco, ele foi trabalhar exclusivamente para a Odebrecht – sem vínculo empregatício -, cuidando de contas offshores em paraísos fiscais, da rede de lavagem de dinheiro montada no setor de propinas, à partir de 2006.

OLIVIO SOBRE PETROPOLIS ALMOÇO

“Ela (Cervejaria Petrópolis) era uma empresa que tinha muitos reais e gostaria de transforma-los em dólares. A Odebrecht precisava de alguém que disponibilizasse reais no Brasil e quisesse receber o equivalente, em dólar, no exterior, e a Cervejaria tinha interesse nessa operação”, relatou o delator.

Olívio e outros dois delatores, Hilberto Mascarenhas da Silva Filho e Luiz Eduardo da Rocha Soares, do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, narraram o almoço, em um restaurante do quilômetro 53, da rodovia Castelo Branco, em que foram apresentados os parceiros.

Entre eles, o dono do Grupo Petrópolis, Walter Faria, seu sobrinho Vanuê Faria e um contador ligado à empresa, Silvio Pelegrine, que seria o controlador da conta da Legacy International Inc.

O delator entregou documentos para os investigadores da Lava Jato, como prova do que narrou, entre eles, um contrato entre as offshores e uma planilha com os registros de movimentação de dinheiro da conta da Legacy e das contas offshores usadas pela Odebrecht, a Klienfeld Services e a Inovattion.

“Fizemos duas operações testes, em confiança”, afirmou Olívio. Foram US$ 500 mil e depois mais US$ 1 milhão para averiguar a eficiência do sistema. As duas operações foram compensadas com depósitos no banco Safra, em Genebra, na Suíça.

Delivery. Os delatores relataram que quem entregava esses valores era a equipe da Hoya Corretora, de Álvaro Novis, um dos prestadores de serviços fixos do setor de propinas.

OLIVIO HOYA

“Toda operação da Petropolis foi feita com a Hoya”, afirmou o delator. Novis tinha até senha no sistema Drousys, espécie de intranet segura, com servidor na Suíça, que os funcionários do setor de propinas da Odebrecht usavam: “Vinho”.

O delator afirmou que o dinheiro da Petrópolis passou a ser entregue para Novis em uma transportadora de valores, no Rio, em que ambos tinham “contas fictícias”.

“A hora que você me transferir dentro da transportadora os recursos, a pessoa na transportadora vai me avisar e você avisa o pessoal da empresa, o Luiz Eduardo ou o Fernando (ambos do setor de propinas) que você está me pagando, eu aviso que estou recebendo, e fecha a operação. Aí o Luiz Eduardo falava: ‘recebemos lá no Rio R$ 1 milhão, precisa transferir para a conta da Legacy, na época, o dólar estava um para um, quase, eu transferia US$ 1 milhão para a conta da Legacy, que era do senhor Silvio Pedegrini”.

Banco. A Legacy e os repasses da Odebrecht para o Grupo Petrópolis foram concentrados no AOB, em Antigua e Barbuda. Quem cuidava dessea repasses era Olívio – que cobrava 2% de cada operação.

Em 2008, a Legacy teve que ser encerrada, quando a Operação Avalanche chegou ao contador do Grupo Petrópolis e ao dono Walter Faria, narraram os delatores. “Não podemos mais mandar dinheiro para a conta da Legacy.”

Olívio conta que um representante do AOB abriu subcontas na conta Legacy e que eles eram usadas para pagar agentes públicos. Por isso, a conta usada pela cervejaria para receber o dinheiro da Odebrecht teve que ser fechada.

COM A PALAVRA, O GRUPO PETRÓPOLIS

“As relações do Grupo Petrópolis com a Odebrecht sempre foram profissionais, inclusive por conta da construção de suas fábricas. Todas as transações financeiras estão declaradas. A empresa não tem qualquer vínculo com a referida conta”.

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