Cérebros desiludidos: Brasil perde mão de obra qualificada com exôdo de brasileiros

Cérebros desiludidos: Brasil perde mão de obra qualificada com exôdo de brasileiros

João Marques da Fonseca*

22 de julho de 2018 | 12h00

João Marques da Fonseca. FOTO: DIVULGAÇÃO

A cada dia que passa, mais brasileiros tentam a vida no exterior. Só entre 2014 e 2016, foram entregues mais de 55 mil Declarações de Saída Definitiva do País, apontam dados da Receita Federal. Esse número representa um crescimento de mais de 80%, se comparado aos três anos anteriores. Porém, acredito que este dígito seja infinitamente maior, pois muitas pessoas não dão baixa no CPF ao sair do País, por questões culturais mesmo.

Entre os motivos mais citados dessa fuga estão a tentativa de escapar da crise econômica que assola o País, a busca por novas oportunidades profissionais e a procura pela tão almejada qualidade de vida. Além, claro, da chance de desviar-se da falta de segurança, que tem sido um dos pontos mais determinantes para a tomada de decisão.

Para o Brasil, este é um prejuízo imensurável. Estamos perdendo, sobretudo, mão de obra qualificada e muitos empreendedores, que, avaliando as condições atuais de permanência no País, optam por investir os seus talentos, ideias, recursos financeiros e energia no desenvolvimento de uma outra nação. E para o nosso País repor esta perda incalculável, de cérebros e de grandes empreendedores, levará dezenas de anos.

Dados do Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores, indicam que mais de 3 milhões de brasileiros firmaram residência em diferentes lugares do mundo, sendo 48% em países da América do Norte, 24% na Europa, 17% na América do Sul, 6% na Ásia e, a menor porcentagem, distribuídos pela América Central, África e Oceania. Atualmente, os destinos mais buscados pelos brasileiros são os Estados Unidos, Portugal e Itália. No caso dos dois últimos, a descendência familiar é o fator preponderante, pois existe a possibilidade da conquista da dupla cidadania.

Mas, não é só o exôdo dos brasileiros que me preocupa. Dentre todos os países desenvolvidos, o Brasil é o único que não tem um projeto de atratividade estabelecido. Os números não mentem e mostram o quanto o Brasil é pouco receptivo quando falamos em mão de obra estrangeira. Dados do Guia Prático – Nova Lei de Migração: Inovação e Riscos Empresariais, divulgado em maio de 2018 pela EMDOC e pelo Pacto Global da ONU, mostram que, no ano de 1900, tínhamos mais de 17 milhões de habitantes no Brasil, sendo 1,1 milhão imigrantes, o que representava 6,3% da população. Em 2015, já eram mais de 204 milhões de habitantes, enquanto o número de imigrantes era de apenas 900 mil, ou seja, 0,4% do total. Em resumo, a população aumentou mais de 11 vezes, já o número de imigrantes ficou, praticamente, estagnado.

Um erro irreparável. Se pararmos para analisar, países como o Canadá, por exemplo, aceleram a sua economia com programas voltados a atrair justamente uma população qualificada e preparada para grandes desafios. E essa receptividade tem proporcionado resultados otimistas para o País, entre eles, a conquista de uma mão de obra mais jovem e o aumento da oferta de empregos. Fatores que, certamente, alavacam a economia local. O Canadá, Estados Unidos, Austrália e Singapura são grandes exemplos de atratividade. Porém o Brasil, ainda vem engatinhando neste assunto.

Espero que com a nova Lei de Migração, que foi regulamentada no final de 2017, o Brasil consiga efetivamente estabelecer projetos que sejam atrativos para que os imigrantes vejam no Brasil uma aposta para se estabelecerem e, consequentemente, alavancarem a nossa economia. Acredito que o novo estatuto será de grande valia neste sentido, pois suas cláusulas dão abertura para este tipo de ação. Vamos torcer para que isso aconteça nos próximos anos. Desta forma, todos saem ganhando.

*João Marques da Fonseca é presidente da EMDOC, consultoria especializada em mobilidade global, bacharel em Administração de Empresas e Ciências Jurídicas. Coautor em oito livros sobre migração e idealizador do PARR (Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados), projeto que visa recolocar os refugiados no mercado de trabalho brasileiro

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