Centenário de um herói

Centenário de um herói

José Renato Nalini*

12 de maio de 2022 | 12h00

Paulo Nogueira Neto. FOTO: SERGIO CASTRO/ESTADÃO

Imerso em polarização irada, solo fecundo de inverdades, o Brasil deixa passar datas que deveriam ser celebradas em inúmeros espaços. É o que ocorre com o centenário de nascimento de Paulo Nogueira Neto, em 18.4.2022. O paulistano filho de Regina Coutinho Nogueira e de Paulo Nogueira Filho, nasceu em berço de ouro. O pai, político renomado, foi deputado federal e figura de realce na vida brasileira na primeira metade do século XX.

Paulo Nogueira Neto estudou no Ginásio São Bento e junto com seu irmão José Bonifácio Coutinho Nogueira, também figura de relevo nacional, fundou em 1937 o jornal “América”, com circulação mensal e que foi publicado até 1940, vida mais longa do que as revistas criadas pelos próceres da Semana de Arte Moderna.

Por tradição familiar, atuou com bravura contra o Estado Novo. Ofereceu-se para lutar e foi soldado da Cavalaria. Bacharelou-se pelas Arcadas em 1945, mas sua vocação era a natureza. Obteve diploma em História Natural na mesma Universidade de São Paulo, em 1959.

Dedicou-se ao estudo das abelhas indígenas sem ferrão, já àquela época preocupado com o desaparecimento das colmeias e suas catastróficas consequências para a polinização e para a produção frutícola.

Sua tese de Doutorado na USP, defendida em 1963, foi exatamente sobre a arquitetura do ninho dessas abelhas. Para obter a Livre-Docência, em 1980, elaborou tese sobre o comportamento de pombas e psitacídeos silvestres.

Percorreu todo o dificultoso trajeto do Magistério Universitário, submetendo-se a concursos públicos de provas e títulos. Assim, tornou-se titular de Ecologia em 1988. Foi um dos principais mentores e fundou, com colegas, o Departamento de Ecologia Geral no Instituto de Biociências da USP. Nunca se afastou da docência e, embora aposentado em 1992, continuou a orientar pós-graduandos, cuja carreira acompanhou com devotamento ímpar.

Defensor convicto e provido de consistente conhecimento a respeito da fragilidade da natureza, submetida à insanidade da cupidez e da ignorância, presidiu a ADEMA-Associação de Defesa do Meio-Ambiente de São Paulo. Sua competência o levou a ser convidado pelo Presidente Ernesto Geisel a assumir a Secretaria Especial do Meio Ambiente, recém-criada e vinculada ao Ministério do Interior. Seu cargo fruía das prerrogativas de ministro e ali permaneceu de 1973 a 1985, permanecendo também na gestão João Batista Figueiredo.

Sereno, prudente, polido e diplomata por nascimento, conseguiu unir visões antípodas sobre o ambiente e foi o responsável pela implementação de uma sólida infraestrutura, que permitiu a conversão da SEMA em Ministério do Meio Ambiente, pasta que mereceu o respeito da comunidade internacional, pela clarividência de seu precursor.

Quando deixou o cargo no governo federal, foi Secretário do Meio Ambiente do Distrito Federal durante dois anos, período em que implantou a Área de Proteção Ambiental de Cafuringa.

Pouca gente sabe que Paulo Nogueira Neto foi figura essencial na célebre Comissão Brundtland das Nações Unidas, de 1983 a 1986, um dos dois únicos representantes da América Latina. Deve-se a ele a elaboração do conceito de “Desenvolvimento Sustentável”, que ele traduzia, singelamente, como “sabendo usar, não vai faltar”. Sua respeitabilidade no cenário mundial o levou a chefiar e a participar de várias delegações oficiais brasileiras no Exterior. Desde a consolidação de sua carreira acadêmica, aliada a uma prática exitosa em todos os projetos para os quais se viu chamado, tornou-se autoridade mundial em ecologia.

Prova disso, inúmeras medalhas, condecorações, títulos e homenagens lhe foram prestadas. Participava assiduamente das sessões da Academia Paulista de Letras, nas quais sempre levava a mensagem de que o ambiente merece carinho e especiais cuidados. Ainda não se dispõe de outro planeta dotado das condições da Terra, para nos abrigar.

Seres predestinados como Paulo Nogueira Neto fazem falta imensa no Brasil de hoje, aparentemente destinado a se converter num deserto, com a deliberada destruição da Floresta Amazônica e dos demais biomas. Sua abalizada formação científica, seu equilíbrio e ponderação, o seu amor à natureza e à Pátria, são exemplos essenciais para uma juventude que não tem merecido a educação ecológica de qualidade. Embora prevista na Constituição da República desde 1988, essa educação ainda não se fez presente de forma eficiente e integral, seja na escola, seja por estratégias informais, tão importantes quanto as curriculares.

Paulo Nogueira Neto faleceu em São Paulo, aos 25 de fevereiro de 2019. Ainda não recebeu do Poder Público a reverência que merece. Mas a sua obra é disponível e precisa ser revisitada por todos aqueles que se preocupam com o futuro ambiental desta Nação.

Dentre seus principais livros, merecem leitura “Criação de Abelhas Indígenas sem Ferrão”, “Animais Alienígenas – Gado Tropical – Áreas Naturais e outros assuntos”, “A Criação de Animais Indígenas Vertebrados”, O Comportamento Animal e as Raízes do Comportamento Humano”, “Mar de Dentro”, “Do Taim ao Chuí”, “Estações Ecológicas – Uma Saga de Ecologia e de Política Ambiental”, “Vida e Criação de Abelhas Indígenas sem ferrão”, “Guará Ambiente Flora e Fauna dos Manguezais de Santos e Cubatão” e a imperdível “Uma trajetória ambientalista: Diário de Paulo Nogueira Neto”.

Para espécimes raríssimas como Paulo Nogueira Neto, infelizmente, não há refil.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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