Cenários desafiadores para a economia brasileira?

Cenários desafiadores para a economia brasileira?

Roberto Dumas Damas*

19 de maio de 2021 | 08h15

Roberto Dumas. FOTO: DIVULGAÇÃO

O cenário econômico do Brasil continua desafiador, mas ventos vindos de fora tendem a melhorar a nossa economia que acabou não aproveitando como deveria o boom de commodities com o crescimento da China e os pacotes expansionistas de Biden e do FED. Mas por quê será que uma onda de otimismo, talvez precoce, parece ter influenciado as decisões de muitos agentes econômicos na precificação de ativos e na reavaliação de suas projeções para o nosso crescimento econômico em 2021 e 2022?

Primeiro vamos às notícias boas: O Brasil é esperado fechar o ano de 2021 com um superávit na balança comercial de mais de US$70bilhões (maior desde 2011) e um superávit em conta corrente do balanço de pagamentos de 0.2% do PIB (Produto Interno Bruto). De fato, aparentemente não parece muito, mas se somarmos as expectativas de entrada de investimentos diretos de US$60 bilhões, talvez a entrada líquida de capital no Brasil no ano de 2021 seja da ordem de mais de US$70 bilhões.

Se somarmos o ritmo de vacinação que o Brasil testemunha, óbvio que ainda aquém do desejado, mas bem à frente de outros países da América Latina como Colômbia, Peru, México, Equador, Bolívia, Venezuela, com exceção do Chile, que já vacinou 46% de sua população e do Uruguai, o Brasil tende a alcançar imunidade de rebanho já em dezembro deste ano ou, mais tardar, no início do primeiro trimestre de 2022, com efeitos expansionistas trazidos pelo relaxamento do isolamento social.

Se somarmos o sucesso dos leilões de concessões que tendem a trazer investimentos para o setor de infraestrutura de mais de R$ 45 bilhões, há de se perguntar, por que tanto negativismo com a economia brasileira?

Ninguém nega a falta de retidão fiscal do governo brasileiro, os artifícios para acomodar emendas parlamentares e novas rodadas de auxílios emergências furando o teto de gastos. Não esquecendo também a influência do centrão na aprovação de reformas como a tributária, unificando apenas PIS e COFINS, deixando a posteriori, temas complexos como ICMS e ISS. Isso sem falar da reforma administrativa que aparentemente, até por parte de interesse do executivo, parece começar pelo fim, ou seja, garantido o direito adquirido dos servidores públicos atuais. Uma completa inversão de valores e absurdos para qualquer analista ou economista vindo de outro planeta.

Mas então por que a tendência de nossa moeda, pelo menos no curto prazo e nossas expectativas quanto ao crescimento econômico do país, tem passado por constantes revisões otimistas? Simplesmente, porque os agentes econômicos já incorporaram esses efeitos em suas projeções. Longe de dizer que essa falta de retidão fiscal e compromisso liberal seja algo de regozijo. Mas os agentes econômicos, domésticos e internacionais, já sabem que esse tipo de postura vem de longa data e o Brasil representa um enorme potencial, que não pode e nem será afetado graças a pujança de seu mercado consumidor. Incorpora-se essas indiligências fiscais no preço dos ativos, ignorando-as. Simples assim.

Mas navegaremos em águas calmas? Longe, mas bem longe disso. Mesmo com a vacinação devendo chegar a quase 60% da população em finais de 2021, as tormentas vindas dos EUA e do FED, que deverão controlar repiques inflacionários, por enquanto e aparentemente transitórios, já tem levado a uma maior inclinação da curva de juros dos US 10Y T.Bonds, limitando a pressão para maior apreciação de nossa moeda. Além disso, os desafios para 2022 parecem mais cabeludos quando vemos políticos como Bolsonaro e Lula despontando no segundo turno. Esse seria o nosso maior risco, junto com uma antecipação de menor afrouxamento monetário por parte do FED e desapontamento no ritmo da vacinação. Certamente não é um cenário tranquilo, mas parece que até o final do ano, já incorporamos essas intempéries na precificação de vários ativos e ou simplesmente permitimos nos entorpecer e negligenciar essas ofensas e transgressões político econômicas. Qual outra explicação?

De qualquer maneira, é inegável que o Brasil continua sendo um mercado consumidor pujante, que conhece e interpreta muito bem suas idiossincrasias, boas e más, desconsiderando grande parte dos erros políticos em relação à retidão fiscal e o conluio inerente a um presidencialismo de coalizão. Urge que tenhamos a capacidade de ver o que está certo e errado na economia e na política, mas mais do que isso, avaliar até que ponto eventuais wrongdoings, realmente afetam o apetite por investimentos no nosso país, que certamente deverá impulsionar o nível de nossa atividade econômica.

Não se trata de profanar um cenário reto, acadêmico e observável do que acontece ao nosso redor, mas de testemunhar, incrédulo ou não, como os agentes econômicos têm tratado assuntos fiscais e políticas “liberais” que fariam Schumpeter e Friedman ruborizarem de vergonha. Ao final das contas, o que nos importa e analisar, compreender, ponderar e entender como os investidores e agentes econômicos avaliam e precificam nossas falhas econômicas e políticas. Ao que parece ainda contamos com as benesses e os corações dos agentes econômicos domésticos e internacionais. Poderia ser melhor? Claro. Mas vamos continuar mantendo nossa pose na foto, respirando fundo e encolhendo a barriga.

*Roberto Dumas Damas, economista e professor do Insper

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.