Cenário propício para surfar na onda da inovação

Rodolfo Santos*

15 de janeiro de 2021 | 03h00

Nunca se falou tanto em criatividade e disrupção como no ano passado. Se, por um lado, o avanço de uma pandemia provocou uma série de prejuízos para empresas em todo o mundo, além da crise de saúde, por outro, deu ênfase à importância da verdadeira transformação digital e potencializou a visibilidade das startups. O momento, portanto, é animador para o ecossistema e ideal para uma reflexão sobre o assunto. Afinal, 2020 ficou marcado por uma importante mudança na mentalidade dos empresários da economia tradicional, que passaram a ter um olhar mais atento aos novos modelos de negócios e, consequentemente, aos investimentos direcionados a soluções que envolvam base tecnológica. Os reflexos aparecerão ainda mais agora, em 2021.

É verdade que esse movimento vinha ganhando força gradativamente. Para ter uma ideia, há cerca de quatro anos, havia poucos investidores nos estágios pré-seed e seed no Brasil, por exemplo, e pouquíssimas grandes empresas tinham abertura para se relacionar com startups. Já entre 2018 e 2019, os aportes em startups saltaram de US$ 1,9 bilhão para US$ 4,6 bilhões na América Latina. Naturalmente, o entusiasmo diminuiu no início de 2020, em função dos impactos da crise provocada pelo coronavírus e da quarentena, mas logo o apetite dos investidores pelas soluções inovadoras voltou a crescer, principalmente devido às oportunidades apresentadas pelos empreendedores.

De janeiro a setembro, o volume investido em startups foi superior ao mesmo período do ano anterior – US$ 2,3 bilhões, em 2020, contra US$ 2,2 bilhões, em 2019. Em 2018, esse valor chegou apenas a US$ 440 milhões, de acordo com os dados do Distrito Dataminer, unidade de inteligência no mercado de open innovation. Esse desempenho demonstra a boa performance das startups em momentos de crise – são mais resilientes, se reinventam de forma ágil e, no atual cenário de incertezas, ofereceram, com rapidez, inúmeras soluções criativas para reduzir os impactos negativos.

Além disso, evidencia, principalmente, que as grandes empresas foram forçadas a se inserir, efetivamente, na chamada nova economia e a buscar escalar seus negócios. Isso significa entender que não basta ter um e-commerce ou estar presente nas redes sociais para ser digital, muito menos disruptivo. A urgência por adaptações, provocada pela pandemia, destacou que a inovação é uma necessidade permanente e precisa estar inserida na cultura organizacional, envolvendo a produção e os processos. Antes, praticamente apenas as companhias mais visionárias tinham essa percepção e estavam investindo para digitalizar suas operações.

Hoje, portanto, ficou claro que as startups, acostumadas a conexões, integrações e adequações ao mercado, não param de oferecer ferramentas para o enfrentamento dos desafios e a conquista dos resultados estratégicos, nos mais variados setores. Para os investidores, também são uma opção interessante em relação às atuais taxas de juros, que estão no menor nível da história. Sendo assim, é a hora de as empresas brasileiras efetivamente consolidarem a transformação digital, de acordo com as suas características e o DNA do seu negócio, e surfarem nessa onda da inovação. Buscar conhecimento e informações para entender melhor esse ecossistema e todas as possibilidades que ele oferece. Procurar apoio para encontrar as melhores opções, desenvolver projetos e até mesmo parcerias para investir.

Potencial para ser explorado não falta. O Brasil, em 2019, foi o terceiro país do mundo com maior número de unicórnios, ficando atrás apenas de China e Estados Unidos. Além disso, até 2011, por exemplo, apenas uma, entre as cinco maiores empresas norte-americanas, era de base tecnológica. Em 2017, todo o TOP 5 já foi composto por elas: Apple, Alphabet, Microsoft, Amazon e Facebook. Paralelamente, somente em agosto de 2020, o argentino MercadoLivre tornou-se a corporação mais valiosa da América Latina. E, agora, após tantas transformações, alguém arriscaria os nomes das companhias tecnológicas que serão as cinco maiores da região até 2026? Para responder, é hora de apurar o olhar empreendedor para as startups e acompanhar de perto as tendências e oportunidades.

*Rodolfo Santos é CEO do BMG UpTech, braço de inovação do Grupo BMG, e da Bossa Nova Investimentos

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.