Células criminosas e suas virais variantes

Células criminosas e suas virais variantes

Flavio Goldberg*

04 de março de 2021 | 12h20

Flavio Goldberg. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Estudos realizados em vários países sinalizam o aumento da agressividade  nas interações sociais, relacionando com o período da pandemia.

Essa agressividade se manifesta de forma as mais variadas, tanto internalizadas através de distúrbios mentais e doenças físicas, mas também na sua forma mais contundente da criminalidade.

Os choques de personalidades exacerbadas pelas medidas de distanciamento social, claustrofóbica, paranoia, recalques e frustrações se somam ao processo da crise econômica e social que jogou no desemprego, e, portanto, no ócio obrigatório dezenas de milhões de pessoas que levam o ceticismo, a desesperança e o desespero à sedução da transgressão das regras de harmonia e civilidade nos pactos civilizatórios.

O feminicídio, a agressão contra a mulheres, crianças, idosos, conflitos entre vizinhos nas megalópoles , o fato potencializado do crime como resposta à realidade do empobrecimento e da miséria bem como à crise existencial na subjetividade atingida pelo pânico diante das crises hospitalares, desordem no sistema jurídico da nação, consciência da fragilidade dos poderes públicos desorientados perante desafios inéditos que paralisam os sistemas de produção e a própria arquitetura cotidiana da existência.

Nesta escalada que vai da infância entre quatro paredes, a adolescência em prisão domiciliar, a educação portanto indefinida e caótica, tudo no enquadramento de solidão imposta, como propício ao álcool, drogas, e toda ordem de violação dos princípios morais que norteiam os sistemas canônicos que marcam a civilização como a entendemos.

Uma observação visível é o transporte destas angústias para o cinema, TV, em que a repetição monotemática da morte apavora e paradoxalmente, normaliza a verdadeira chacina diária de uma guerra surda em que leis da guerra nem sequer são obedecidas porque não existe combate, eis que só a Covid19 é o exército vitorioso num front horizontal de cemitério e horror.

Eis contextualizado o cenário perfeito para o desenvolvimento da belicosidade e ruptura dos limites patrimoniais, concretos, físicos da pessoa, até o esgarçamento absoluto do tecido social que cimenta o progresso.

Basta ao Código Penal, a Constituição ou se impõe uma nova formulação legal capaz de ordenar a convivência pacífica na sociedade?

Arrematando se observa que o “home office”, o recolhimento na casa como núcleo quase que exclusivo de convivência da família enseja proximidade afetiva de outra parte propiciou o “bullyng”,  exaustão emocional, as tramas sexuais, tudo na somatória de ciúmes, competições, espaços em disputa que joga para o Direito da Família, o Direito Civil, o divórcio litigioso, no pântano das aflições humanas, profundamente, humanas.

*Flavio Goldberg, advogado e mestre em Direito

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