Celso de Mello impõe sigilo em depoimento de Paulo Marinho no inquérito Moro contra Bolsonaro

Celso de Mello impõe sigilo em depoimento de Paulo Marinho no inquérito Moro contra Bolsonaro

Decano acolheu pedido da Polícia Federal e colocou sigilo geral nos depoimentos do empresário e do chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro; oitivas serão conduzidas nesta terça, 26 e quarta, 27

Paulo Roberto Netto

25 de maio de 2020 | 22h44

O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, colocou sob sigilo os depoimentos do empresário Paulo Marinho e do chefe de gabinete do senador Flávio Bolsonaro, Miguel Ângelo Braga Grillo, no inquérito que apura acusações do ex-ministro Sérgio Moro de ‘interferências políticas’ do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

O sigilo também engloba todos os ‘demais atos policiais que se sucederem em decorrência dos já mencionados depoimentos testemunhais’. A determinação de Celso permite apenas ao Ministério Público Federal acessar os depoimentos e também ‘eventuais diligências’ da PF que ocorrerem após as oitivas. Os documentos deverão ser autuados em separado dos autos do inquérito 4831 – Moro contra Bolsonaro – com expressa referência de sigilo.

Documento

As oitivas serão realizadas nesta terça, 26, e quarta, 27, no Rio de Janeiro e em Brasília. Marinho será o primeiro a depor. O empresário e ex-aliado de Bolsonaro é pivô de investigação sobre suposto vazamento de informações da Operação Furna da Onça, que levou à produção do relatório do Coaf que detectou movimentações suspeitas do ex-assessor Fabrício Queiroz. O caso foi revelado pelo Estadão.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, Marinho revelou que um delegado simpatizante de Bolsonaro teria repassado a dica para demitir Queiroz e sua filha antes da deflagração da operação – e disse que iria ‘adiar’ a ação para depois do segundo turno das eleições de 2018.

O empresário já foi ouvido pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal no inquérito da PF Rio sobre o vazamento. Agora, prestará depoimento no caso Moro contra Bolsonaro após intimação da Procuradoria-Geral da República. O caso quer apurar ligações entre as revelações do Marinho e as acusações de Moro sobre as tentativas de Bolsonaro em trocar o comando da Polícia Federal do Rio.

O empresário Paulo Marinho deixa a sede da Polícia Federal após prestar depoimento na quarta, 20. Foto: Wilton Júnior / Estadão

As reclamações de Bolsonaro se tornaram públicas na sexta, 22, após o decano divulgar a gravação da reunião ministerial do dia 22 de abril. Entre palavrões e ameaças, as imagens mostram o presidente cobrando mudanças no governo e fazendo pressão sobre Moro e os demais auxiliares sob a alegação de que não vai esperar ‘foder a minha família toda’.

“Mas é a putaria o tempo todo pra me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu (sic), porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira”, disse Bolsonaro.

A versão do Planalto é que Bolsonaro, neste momento, se referia à sua segurança pessoal, a cargo do Gabinete de Segurança Institucional, comandado pelo ministro Augusto Heleno. Em despacho, a PF cobrou provas do ministro palaciano para sustentar as reclamações do presidente.

Moro, por sua vez, acusa o presidente de ameaçar demiti-lo caso não aceitasse a saída de Maurício Valeixo da direção-geral da PF e a substituição do comando da corporação no Rio de Janeiro, foco de interesse da família presidencial.

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