Cela em Curitiba vira academia e escritório

Rotina na prisão inclui sessões de ginástica, anotações e visitas de familiares; inverno de Curitiba foi amenizado por chuveiro com água quente

Redação

27 de setembro de 2015 | 05h50

Marcelo Odebrecht foi preso em 19 de junho. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Marcelo Odebrecht foi preso em 19 de junho. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo, Alberto Bombig e Julia Affonso

Afastado do comando do maior conglomerado industrial do Brasil – são 15 diferentes divisões de negócios – e acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa em contratos da Petrobrás, o empreiteiro Marcelo Odebrecht transformou o exíguo espaço onde passa a maior parte dos dias enclausurado em escritório e academia. Odebrecht está preso desde o dia 19 de junho quando foi deflagrada a 14ª fase da Operação Lava Jato.

Os 100 dias de cárcere do maior empreiteiro do Brasil

Longe das raias de sua piscina particular, faz exercícios físicos e anotações. O terno deu lugar ao agasalho de academia. Faz “step” (subir e descer degraus) de improviso na estrutura de concreto da cela, abdominais e flexões. Uma rotina que começa cedo e segue tarde adentro. O terno, ele só voltou a usar quando foi levado a depor CPI da Petrobrás. Na ocasião, orientado por seu advogado, negou “ter o que dedurar” para rechaçar a hipótese de aderir à delação premiada.

Odebrecht não para nem demonstra abatimento, e anota: são orientações aos advogados, análises das peças dos processos da Lava Jato, que ele lê e relê atentamente, indicações de argumentos, pontos a serem questionados em juízo, táticas de publicidade e relação com a imprensa. Acostumado a dar ordens, mantém dentro do cárcere a figura do líder. Cinco executivos da Odebrecht, presos também no dia 19 de junho, mantém a reverência hierarquia, mesmo afastados dos cargos e longe da empresa. “Parece uma relação de seita”, diz uma autoridade da equipe da Lava Jato, em reservado.

Os 100 dias de cárcere de Odebrecht são divididos em duas etapas. Nos 26 primeiros dias esteve preso na Custódia da Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba – QG das investigações, sob a guarda direta daqueles que o prenderam. O empresário dormiu na cama superior de uma beliche, em uma cela sem janela, onde a luz que entra é a do vão das grades da porta. Com ele, dois outros executivos. Acostumado a eventos sociais, jantares sofisticados, o dono da Odebrecht não reclamou da comida, em geral arroz, feijão, macarrão e uma carne.

Seu primeiro pedido chegou oficialmente, via advogado, no mesmo dia que foi transferido para Curitiba: o direito ao consumo de barras de cereal de três em três horas, por causa de uma hipoglicemia. Foi atendido. Ao ser preso, Marcelo Odebrecht avisou aos familiares que não queria receber visitas. A ordem deveria valer também para a mulher dele, Isabela. Mas é ela, junto com a irmã do executivo, Mônica Odebrecht quem mais o visitam na carceragem, sempre às sextas-feiras.

Odebrecht pediu pessoalmente aos agentes da Custódia da PF iluminação dentro da cela (o que é proibido) e depois a liberação para comprar duas TVs que seriam instaladas estrategicamente nos dois corredores que dão acesso aos dois blocos de três celas. Ambos negados.

Banho quente. No dia 25 de julho, Odebrecht e os outros cinco executivos da empreiteira foram transferidos para o Complexo Médico-Penal, em Pinhais, região metropolitana de Curitiba, cidade de inverno intenso e rigoroso.
A unidade de prisão estadual, apesar de abrigar detentos condenados, tem acomodações mais espaçosas e um de seus principais problemas, o banho gelado, foi resolvido. Antes de ser liberado para cumprir pena em regime domiciliar, no inicio do ano, um dos donos da construtora Mendes Júnior conseguiu autorização para instalar um sistema de aquecimento para os banhos na unidade.

 

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