Caso Karol Conká: traumas na infância podem levar a vários transtornos psicológicos

Caso Karol Conká: traumas na infância podem levar a vários transtornos psicológicos

Telma Abrahão*

19 de fevereiro de 2021 | 07h30

Telma Abrahão. FOTO: DIVULGAÇÃO

No Big Brother Brasil, as atitudes da participante Karol Conka têm sido um dos assuntos mais comentados no Twitter. Nos últimos dias, ela tem agido para isolar seu principal desafeto, o Lucas Penteado. Através desse texto faço um convite a reflexão. Também não é um ataque contra os pais que já agiram assim com os filhos, mas sim uma oportunidade de rever conceitos.

Karol diz que, na infância, sua mãe a “ensinava” com o isolamento: “É bom para o Lucas a gente ignorar ele. Minha mãe me ignorava por horas, passava um dia sem falar comigo”.

Essa é uma oportunidade para mostrar, na prática, como a violência emocional é passada de geração em geração, e como acabamos perpetuando atitudes abusivas na educação.

A criança errou? Então precisa ser castigada, ignorada e pagar pelo que fez para aprender?

A questão é que nenhuma criança erra para atacar os pais. Esse é, na verdade, o caminho natural do aprendizado humano. Antes de aprender a andar, você caiu várias vezes. Os erros são grandes oportunidades de aprendizado, e não motivos para castigos. Tem coisa pior que ser desprezado? Imagine como se sente uma criança desprezada?

O desprezo gera medo, desconforto, sensação de abandono e desamor. E mais tarde quando crescemos, reproduzimos a mesma dinâmica com as pessoas que nos relacionamos. É o conhecido: “Não fez o que eu queria? Não me obedeceu cegamente? Então vou te castigar com o meu desprezo!”

Somos uma geração que pouco aprendeu sobre equilíbrio e educação emocional. Pessoas feridas, magoadas, ressentidas que ferem, magoam e ressentem outras pessoas. Só sabe amar quem foi amado. Quem foi maltratado, não aprendeu a amar, aprendeu a se defender.

Para bem educar precisamos primeiro aprender a analisar e amadurecer nossas atitudes, e assim não perpetuarmos nossos traumas, principalmente nas pessoas que mais amamos. A base de uma relação emocionalmente saudável entre pais e filhos está justamente na tomada de consciência para mudar atitudes autoritárias que não funcionam a longo prazo e aprender a considerar o que os filhos pensam, sentem e decidem sobre si mesmo e o mundo.

Nascemos sem julgamento, nosso cérebro é imaturo. Nosso grande primeiro exemplo de vida são nossos país e familiares próximos. Os exemplos nos ensinam muito, aprendemos mais com eles do que com as palavras que ouvimos. Quando os pais proferem palavras agressivas, agem com agressividade, batem ou gritam com seus filhos, eles acabam aprendendo que esse tipo de comportamento é aceitável, e futuramente podem fazer o mesmo.

Inconscientemente, temos uma tendencia em reproduzir aquilo que tivemos como base na nossa primeira fase de vida. Ao ser criado em ambientes tóxicos, agressivos e repletos de ofensas, acabamos internalizando esse tipo de comportamento e agindo da mesma forma nos relacionamentos. Não porque necessariamente é uma pessoa ruim, mas porque foi como essa pessoa aprendeu a se relacionar.

Devemos ter o entendimento que na infância somos vítimas, mas na vida adulta não. Não é possível uma criança mudar a forma de pensar sozinha. Esse discernimento vem com a maturidade, com as experiências vividas ao longo dos anos e especialmente nas relações que temos. Já na fase adulta, devemos refletir sobre nossos comportamentos e buscar melhorar os impactos das atitudes que temos em nossa vida. A conscientização é o primeiro passo para a mudança que desejamos fazer. O autoconhecimento ajuda na ressignificação das crenças limitantes que foram adquiridas no passado e acaba melhorando ou até mesmo quebrando o ciclo da dor.

Karol, na minha opinião, reproduz essas repressões e violências com os outros confinados devido à sua criança na infância. Ela não deixa de ser responsável por suas ações, mas é possível observar a provável causa de suas atitudes. Se durante sua infância, a cantora aprendeu a se defender e ficar na defensiva contra constantes ataques, tanto físico quanto emocionais, ela pode sim acabar reproduzindo esse mesmo comportamento em sua vida. Como adulta, ela é responsabilizada por seus atos, pois não agiu para mudar essa realidade. Pelo que observamos durante sua participação, Karol acabou agindo sem se questionar sobre o impacto negativo de suas falas.

Cabe a ela reconhecer as próprias limitações emocionais e buscar aprender a agir diferente. E como sociedade, precisamos desenvolver um olhar mais empático para o outro. Todos nós cometemos erros, e se ao invés de criticar, pudéssemos olhar para os desafios humanos com mais compaixão e menos julgamento, ficaria bem mais fácil resolver tantos conflitos. E essa mudança precisa começar primeiramente em nós mesmos, com um olhar mais respeitoso para as nossas próprias falhas.

*Telma Abrahão, biomédica, especialista em educação emocional e autora de Pais Que Evoluem – Um novo olhar para a infância

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