Carta de uma filha

Carta de uma filha

Luciana Santiago*

13 de julho de 2020 | 06h00

A imagem da Orquídea que emoldura esta mensagem brotou das mãos da minha encarcerada Mãe. Assim como eu, embora frágil e adoecida, ela confia na verdade que o tempo se cuidará de trazer. E eu a ofereço, nesse momento, a Vossa Excelência.

E eis-me aqui e agora, passados 7 meses (214 dias/ 5.136 horas) desde que a Magistrada Maria do Socorro Barreto Santiago foi presa preventivamente, com toda a dor de que nunca me senti capaz de suportar, escolho tentar transpor ao papel, nessa singela Carta, com coragem e o máximo de minha vulnerabilidade, o sentimento que desde então me dilacera a alma.

Permita-me, de logo, me apresentar. Sou Luciana, uma pessoa humana como outra qualquer, com sonhos, valores, falhas e todo esse conjunto que forma cada um de nós. Sou Luciana Santiago, filha de Maria do Socorro Barreto Santiago, a mulher sobre quem falarei.

Encareço, antes de tudo, a Vossa Excelência, que inicie a leitura do meu escrito sob a inspiração do não julgamento. Permita-se sentir minhas palavras, que partem do meu coração e se dirigem ao seu coração. Com elas eu gostaria de transmitir toda a minha crença na Justiça do nosso País.

São inúmeras as razões que justificam minha manifestação por esse meio. Aterei-me, contudo, por ora, a apenas uma: O RISCO DE MORTE DE MINHA MÃE por conta da Pandemia da Covid-19. Sim, imenso risco de morte. Minha mãe, presa preventivamente e sem julgamento há sete meses (duzentos e catorze dias), tem 67 anos e co-morbidades como hipertensão e diabetes. Por isso ela integra o grupo de risco de, vindo a ser acometida, não resistir.

Tenho consciência de que não posso pedir a Vossa Excelência compaixão pela gigantesca dor pela qual ela, eu, suas outras filhas, minhas irmãs, seus netos, irmãos, demais familiares e amigos estão vivenciando desde sua prisão. Também admito que não posso compartilhar com Vossa Excelência a nossa sensação de impotência perante tantos achaques e violências sofridos ao longo desse turbulento e duradouro período de prova.

Reconheço que tomei essa dor como minha e não voltarei a minha vida sem ver a dela ser restituída. Permito-me aqui lembrar que muito pequena tive um acidente de afogamento e foi ela quem me socorreu, levando-me ao posto médico de Itapuã, em Salvador, onde lhe disseram que era tarde demais. Minha mãe simplesmente recusou esta resposta, me tirou dali e salvou a minha vida, fazendo, ela mesma, respiração boca a boca. E eu agora sua filha, pela graça de Deus, não a deixarei morrer.

A minha mãe está presa por ter feito uma ligação desconhecendo a existência de uma proibição dentro de uma decisão de 70 páginas que lhe foi entregue, minutos após a saída da PF. Eu havia lhe pedido para saber desse celular. A indagação sobre o esvaziamento do celular era minha e não de minha mãe e ela não recebeu resposta, pois ali soube da vedação de contato com o seu gabinete. Surpresa com a informação, desligou. E foi esse o motivo de sua prisão. Penso, por vezes, fosse melhor se eu tivesse morrido naquele acidente…

A primeira prova inconteste de que ela não foi informada que ela não poderia se comunicar com o gabinete está no processo: “Ao final, foi dada ciência a Senhora Maria do Socorro do ofício comunicando seu afastamento das funções por 90 dias, bem como de intimação para comparecimento à Polícia Federal para prestar esclarecimentos.” Nada foi dito da proibição.

Resta-me, então, em vista da circunstância de terem sido negados todos os seus pedidos e justificativas até hoje feitos, os quais apontaram a arbitrariedade da manutenção da prisão sem condenação de Minha Mãe, em face do cenário nacional atual da Pandemia da Covid19, onde centenas de custodiados estão contaminados com o vírus, razão maior se impõe para a concessão da sua liberdade, em face de sua inequívoca condição de risco.

Eu me pergunto todos os dias a razão de Minha Mãe, há tanto tempo presa sem condenação, estar sendo violentada desta forma no seu direito à VIDA. Eu me pergunto o motivo de tamanha desumanidade. Eu me pergunto até quando.

De tão cansada o olhar de Minha Mãe é pura tristeza. Ela teme por sua vida. Teme por nós. Eu temo por ela e não há um dia sequer que não recuse o desespero. Mas ela tem a mim e eu agora tenho a Vossa Excelência a quem dirijo, pequena como um grão de areia, esse pedido de socorro:

Fosse eu rei do mundo
Baixava uma lei:
Mãe não morre nunca
Mãe ficará sempre
Junto de seu filho
E ele, velho embora
Será pequenino
Feito grão de milho
(Carlos Drumond de Andrade)

Ajude-me a garantir a VIDA da Minha Mãe Maria do Socorro Barreto Santiago. Ajude-me a continuar acreditando na JUSTIÇA. Diga-me o que posso fazer e o farei. Apenas não posso retornar para minha própria vida enquanto a dela não for respeitada. Não deixem acontecer com a minha MÃE o que aconteceu com Nelson Meurer… Ela não foi condenada por nada e não merece pagar com a MORTE.

Por fim, agradeço desde já a Vossa Excelência pela escuta de minha dor e peço desculpas por eventual incômodo causado.

*Luciana Santiago, uma filha que clama por Justiça

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