Carrasco de todo ser vivo

Carrasco de todo ser vivo

José Renato Nalini*

13 de outubro de 2020 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: HELVIO ROMERO/ESTADÃO

A História da Humanidade pode ser encarada como o retrato de uma tendência suicida. A maneira com que o ser humano trata a natureza é eloquente atestado de sua vocação exterminadora. Ian Tattersall, famoso paleoantropólogo e autor de “O Macaco no Espelho”, dentre outros livros, observa que “uma das ideias que os seres humanos têm mais dificuldades em aceitar, é que não somos a culminação de nada. Nossa presença aqui nada tem de inevitável. Faz parte da vaidade humana tendermos a pensar na evolução como um processo que, no fundo, foi programado para nos produzir. Os próprios antropólogos tendiam a pensar assim até a década de 1970”.

Há infinitas indicações de que não respeitamos a vida. Seja ela vegetal, seja animal. Somos cruéis para com os nossos semelhantes. Mas é suficiente avaliar o que temos feito com os irracionais para concluir sem hesitação que optamos pela carreira de carrasco dos viventes.

É conhecido o episódio na Ilha Maurício, no século XVII, por volta de 1680, da deliberada extinção do pássaro dodô, famosa ave não voadora. Ingênuo, porque não tinha o azar de conviver com humanos, era presa fácil porque ainda não fora perseguido. Não se tem um exemplar para contar sua história: em 1755, o diretor do Ashmolean Museum queimou o último dodô empalhado.

Insistíamos na façanha de fazer desaparecer os seres vivos, iniciada muito antes. Trinta gêneros de grandes animais desapareceram na América, após à chegada dos humanos. Entre Américas do Norte e do Sul, trucidamos três quartos de seus animais de porte. Na Europa e Ásia, os irracionais tiveram tempo maior para desenvolver táticas cautelosas e a perda foi de um terço e metade. Já a Austrália sofreu perda de 95%.

Criaturas espetaculares nunca mais serão vistas. Como desapareceram, somos infinitamente mais pobres. Tanto que só quatro animais terrestres volumosos ainda sobram, mas a caminho da extinção: elefantes, rinocerontes, hipopótamos e girafas.

Tim Flannery, um naturalista australiano, estranhava sabermos tão pouco sobre as espécies extintas. Junto com o artista Peter Schouten, fizeram viagem por todo o globo, para tentar descobrir o que se perdeu, examinando coleções, desenhos e descrições escritas. Escreveram juntos o livro “Uma lacuna na natureza”, um completo catálogo da fauna que o homem matou nos últimos trezentos anos.

Nem todas as matanças foram exatamente cruéis. Resultaram da ignorância. Em 1894, durante a construção de um farol na Ilha Stephens, no estreito entre as ilhas do Norte e do Sul na Nova Zelândia, o gato do faroleiro trazia aves pequenas e estranhas, por ele capturadas. Era uma espécie rara de cambaxirra não voadora. O gato acabou com todas.

O lindo periquito verde-esmeralda da Carolina, com cabeça dourada, é considerado a ave mais impressionante da América do Norte. Mas foi considerado praga pelos fazendeiros e era fácil de caçar, porque vivia em bandos e fugia com os disparos, mas voltava para socorrer os feridos. A solidariedade animal foi a causa de sua extinção.

Lionel Walter Rotshchild, o segundo barão da família, viveu de 1868 a 1937 e era apaixonado por história natural. Patrocinava expedições para capturar novas espécies e as empalhava para a sua coleção. Embora considerado cientista, na década de 1890 voltou seu interesse para o Havaí, o ambiente mais vulnerável do planeta. Eram 8.800 espécies singulares de animais e plantas. Aves coloridíssimas e fáceis de capturar. Bastava imitar seu pio e elas acorriam para o caçador, que as matava. Também em 1890, o estado de Nova Iorque pagava prêmios para quem eliminasse leões da montanha. Ainda existem nos EUA incentivo a quem traga “praga” morta. Todo animal silvestre é assim considerado. Na Austrália, havia incentivo para quem matasse o lobo da tasmânia e na China, as andorinhas eram eliminadas para não competir com os humanos que se alimentavam de arroz.

No Brasil, a caça à onça pintada já foi incentivada e filmada. O livro “A arca naufragante”, de Norman Myers, narra que o homem causa seiscentas extinções por semana. Há quem diga que esse número supera o milhar. Na verdade, sequer sabemos quantos os animais que fizemos desaparecer, além da exuberante biodiversidade vegetal, que destruímos, incendiamos, arrasamos em nome de algo impropriamente chamado “progresso”.

Tudo isso, é feito deliberadamente, sem desconhecer que só temos a Terra para morar. Esta frágil pequena esfera, que sofre e emite intensos sinais de exaustão.

Somos péssimos inquilinos do globo. Como disse Edward. O. Wilson no seu livro “Diversidade da vida”, não levamos a sério nossa permanência neste planeta: “um planeta, uma experiência”. Que pode acabar pessimamente, se não nos convertermos para aprender a respeitar toda espécie de vida. Inclusive a nossa, indissoluvelmente ligada e condicionada à existência de nossas vítimas.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e autor de Ética Ambiental, 4.ª ed., RT-Thomson Reuters

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