Caro, injusto, ineficiente!

Caro, injusto, ineficiente!

José Renato Nalini*

14 de janeiro de 2022 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Esse é o modelo atual de Estado brasileiro. Um Estado tentacular, gigantesco, cuja imagem é macrocefálica. Uma União concentradora de poder e de recursos e as demais entidades federativas desprovidas de recursos e de autoridade.

O escândalo do custo das estatais federais é algo inimaginável numa república civilizada. Em subvenções bilionárias, esse gasto quadruplicou nos últimos dez anos: eram 6,5 bilhões de reais em 2012; passaram a 13,3 bilhões em 2016; depois a 17,9 bilhões em 2019 e chegam a intoleráveis 19,9 bilhões de reais em 2021.

O Brasil não cabe no seu PIB, que se reduz a cada dia. É um ridículo “pibinho” para uma nação que já chegou a figurar entre as maiores economias planetárias.

Verdade que a política tupiniquim é rasteira. Não é um ente apolítico e que nutre angustiante decepção quanto à mais recente experiência, depois de atuar no sistema Justiça por quase meio século. Quem o diz é Paulo Hartung, que governou o Espírito Santo por três mandatos: 2003-2010 e 2015-2018. No seu livro “Brasil: Desafios e Propósitos”, ele afirma que “o país atravessa um deserto quanto ao surgimento de líderes que inspirem, pautem e ensejem o novo, a inovação e a vanguarda em termos socioeconômicos e político-culturais”.

Esse deserto não surgiu de repente. Foi gradualmente produzido por falta de seriedade no trato da educação. O mundo mudou e o Brasil continuou atrelado ao anacronismo. Em lugar de criação de uma cidadania consciente e com capacidade crítica, preservou-se a concepção de que educar é transmitir informações. Isso já não funciona em tempos de Quarta Revolução Industrial, quando os dados são disponíveis online e o professor tem de ser um curador de informações. Alguém que oriente o educando a filtrar o que vale e o que não vale. Ajude o aluno a pesquisar, a formar sua própria consciência. A educação decoreba, oferecida pelo governo, é antagônica à formação de uma cidadania.

É o que explica o quadro de desolação nacional, tão bem explicado por Hartung. Para ele, “a baixa mobilidade social a desigualdade, marcas perversas no presente, remontam a uma sociedade constituída sobre o escravagismo e que passou boa parte do século 20 sem investimentos suficientes numa educação transformadora das suas estruturas.

O Estado brasileiro tem sido uma catástrofe. Concentra rendas e estimula disparidades. Pense-se no cenário que o Brasil oferece ao planeta nestes tempos: destruição da floresta amazônica e de todos os demais biomas – pasmem! O Pantanal em chamas!!! – exploração de minérios em terras indígenas; fome absoluta para mais de vinte milhões de nacionais! Desemprego galopante! Ruptura da lei de responsabilidade fiscal! Negacionismo quanto à peste! Audiência pública para propiciar vacina infantil, como se isso tivesse ocorrido para as vacinas da poliomielite, sarampo, gripe, varíola e tudo o mais que parecia controlado antes destes dias tenebrosos!

Não é só: o Parlamento autorizando gasto de quase seis bilhões para uma eleição em que a democracia representativa está falida! Ninguém se sente representado!

Verbas para combater a pandemia foram utilizadas para aquisição de filé mignon e picanha, enquanto hordas de irmãos perseguem caminhões de ossos e reviram lixões em busca de alimento!

Enquanto o mundo forma gerações desenvoltas com as TICs – Tecnologias de Informação e Comunicação que trabalham para um eficiente processo educacional e para oferecer trabalho para jovens millenials, aqui se desmancham as estruturas de tutela de bens da vida essenciais, como o meio ambiente, a educação, a cultura em geral. As redes sociais têm servido para disseminar a desinformação, o deboche, o escárnio, o ódio, a intolerância, o preconceito e a maledicência.

Parece uma narrativa de pesadelo? O que já era ruim ficou ainda pior com a pandemia. Para Hartung, por incrível que pareça, há uma réstea de esperança: “Entendo que chegamos ao término desse ciclo. Estamos num fim melancólico produzido por absoluta crise de sustentabilidade fiscal. Não há recursos públicos suficientes para financiar esse modelo de Estado, caro, injusto e ineficiente”.

Resta acreditar “na impositiva caminhada de reinvenção democrático republicano”. Que Deus nos ouça e volte seus generosos olhos para o Brasil.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoJosé Renato Nalini

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.