Carnificina

Carnificina

Rodrigo Merli Antunes*

28 de março de 2019 | 15h23

Rodrigo Merli Antunes. Foto: Arquivo Pessoal

Não! Não vou escrever aqui sobre a prisão de Michel Temer e/ou sobre sua soltura, até porque essas coisas já eram esperadas, em especial a segunda.

Vou falar sobre meu júri de anteontem, onde um marmanjo drogado de 37 anos assassinou a golpes de facão a própria mãe, dilacerando sua cabeça. Detalhe: referida senhora tinha 68 anos de idade e não teve qualquer chance de se defender.

Querem se espantar ainda mais? Pois bem, esta dócil criatura que a matou já tinha ao menos 4 condenações por furto, uma por estelionato, outra por roubo a mão armada e, por óbvio, já estava à solta depois de pouco tempo de prisão. Em outras palavras, toda esta leniência do sistema com o “coitadinho”, bem como a facilidade cada vez maior de acesso às drogas, culminou, novamente, na morte de uma pessoa inocente.

Até quando então nossos intelectuais de araque continuarão pregando o desencarceramento em massa, a legalização dos entorpecentes e outras coisas do gênero? E nossos políticos e autoridades supremas? Continuarão no interior de suas bolhas ignorando a realidade? E o pacote anticrime do ministro Sergio Moro, que visa recrudescer um pouco o tratamento penal destas verdadeiras bestas-feras? Será que pode mesmo ficar suspenso e aguardar mais alguns meses? Somente a reforma da previdência é fundamental neste momento?

Ora bolas, ninguém discute a importância deste tema no cenário atual, mas, por outro lado, se não existirem pessoas vivas para se aposentar no futuro, toda esta celeuma perde totalmente seu fundamento de validade.

Mas, vai ver eu deva ficar quieto, né? Nos dias atuais, criticar algumas autoridades ou ser um pouco mais duro com os poderosos de Brasília rende alguns inquéritos policiais, investigações de ofício e outras coisas que eles queiram inventar. Engraçado, não? Punição e prisão somente para os críticos.

Já para os corruptos e para a bandidagem, o cárcere não funciona e o negócio é liberar geral. Meu réu de anteontem que o diga. Apesar da nova condenação a 25 anos, sua pena será diminuída aqui e ali, podendo voltar às ruas por conta dos inúmeros benefícios de nossa Lei de Execuções Penais.

Realmente, nosso país é estranho, muito estranho! Vivemos numa situação de verdadeiro democídio, isto é, o povo está morrendo, e por conta do próprio Estado. Entretanto, pensando bem, não vou ficar calado não! Como dizia o político e filósofo irlandês Edmund Burke, “para que o mal triunfe, basta que os bons cruzem os braços”.

*Rodrigo Merli Antunes promotor de Justiça do Tribunal do Júri de Guarulhos, pós-graduado em Direito Processual Penal

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