‘Não é porque eu sou juíza do Supremo Tribunal Federal que não sofro discriminação’, diz Cármen Lúcia

‘Não é porque eu sou juíza do Supremo Tribunal Federal que não sofro discriminação’, diz Cármen Lúcia

Ministra discursou em seminário organizado pela bancada feminina no Senado Federal sobre participação das mulheres na política e disse que desigualdade de gênero é 'barbárie'

Rayssa Motta

30 de maio de 2022 | 15h59

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), defendeu nesta segunda-feira, 30, a ampliação da participação feminina na política e na magistratura.

“Eu quero ter a esperança de que cada mulher no mundo possa ser o que ela quiser, para ela cumprir sua vocação e ajudar a humanidade”, afirmou. Ela esteve no Senado Federal para participar de um seminário sobre a presença das mulheres nos espaços de poder.

Cármen Lúcia foi a segunda mulher a ocupar uma cadeira no STF, cargo mais alto na hierarquia do Judiciário brasileiro, e chegou a presidir o tribunal entre 2016 e 2018. Em eventos recentes, tem feito uma defesa intransigente da igualdade de gênero.

“Quando eu falo que eu sofro discriminação, e não é porque eu sou juíza do Supremo Tribunal Federal que não sofro, sofro. E eu estou usando o verbo que eu quero: é um sofrimento alguém te olhar como se você fosse menos, porque eu sou o que eu sou. Eu sou mulher, adoro ser mulher. Não tem sentido que eu não possa ser tratada realmente em condições de igualdade”, disse.

Cármen Lúcia: “Nós temos a maioria da população feminina no Brasil, temos uma Constituição que garante igualdade, e no entanto nós não temos a efetividade igual dos direitos”. Foto: André Dusek/Estadão

No seminário de hoje, a ministra voltou a defender que as mulheres assumam cargos estratégicos ao invés de terceirizar a representação feminina.

“Eu não quero nada sobre mim que não seja por mim mesma. Eu sei falar melhor de mim do que qualquer outra pessoa. Eu tenho voz e eu quero ter vez porque a minha voz vai refletir a minha alma e o meu sentido”, disse.

A ministra chamou o preconceito de gênero de “bárbarie contra a civilização” e disse que o machismo é uma construção social e cultural.

“A sociedade não caiu do céu, não nasceu no inferno. A sociedade é o que nós construímos e foi construída uma sociedade na qual era para as mulheres acreditarem na história da gata borralheira: a mulher tem um lugar e o lugar é o borralho. ‘Fique quieta lá que um dia aparece um príncipe encantado que vai te fazer transformar em princesa’. Isso é mentira”, afirmou.

Em sua fala, Cármen Lúcia chamou atenção para a sub-representatividade feminina não só no Executivo e no Legislativo, mas também no Judiciário, sobretudo em relação a mulheres negras.

“Nós temos a maioria da população feminina no Brasil, temos uma Constituição que garante igualdade, e no entanto nós não temos a efetividade igual dos direitos”, disse. “Mesmo entre nós mulheres, há grandes diferenças. Se eu pegar o contingente de mulheres que há hoje compondo a magistratura brasileira, somente 7% são negras, o que significa dizer que nosso descompasso histórico é enorme”, destacou.

A ministra ainda afirmou que a igualdade entre homens e mulheres está prevista na Constituição e que o texto constitucional “não é sugestão, não é proposta, não é aviso, é lei”.

“E é a lei que fundamenta o País e há de der cumprida integralmente”, defendeu. “É um descalabro que cheguemos a 2022 e o marco civilizatório da humanidade não tenha superado isso: todo ser humano é igual ao outro.”

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