Cármen critica ‘demonização’ da política e excesso de siglas partidárias

Cármen critica ‘demonização’ da política e excesso de siglas partidárias

Em palestra nesta quinta-feira, 21, presidente do Supremo defende necessidade de brasileiro 'agir com ética em seu cotidiano'

Amanda Pupo/BRASÍLIA

21 Junho 2018 | 11h44

Cármen Lúcia. Foto: EFE/Andre Coelho

A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, criticou a “demonização” da política em palestra nesta quinta-feira, 21, destacando a necessidade de o brasileiro agir com ética em seu cotidiano. “Demonizar a política não faz com que nós não tenhamos o caos provavelmente em vários momentos”, disse a ministra no 2ª Congresso de Direito Eleitoral de Brasília. Cármen também comentou sobre o número “excessivo” de partidos brasileiros e a falta de objetividade nos programas das siglas.

“Hoje vivemos um momento particularmente grave onde a maioria acha ruim tudo que aí está, desde a fila no açougue até o governo, e tem direito de achar. Mas que ele fure a fila do açougue e acha que o secretário quando fura a fila da licitação tem de ser punido. É preciso que todos nós nos comprometamos com a ética”, afirmou a presidente da Suprema Corte.

Segundo a ministra, o País, “que vive uma crise”, deve melhorar quando a população for comprometida com a ética e com a construção da democracia. “A política é necessária. Podemos ser contra servidor, agente públicos, programas de governo e governantes, a democracia é a liberdade de opinar e de se contrapor, mas o que não podemos é ficar sem política”, continuou a ministra.

Cármen ressaltou que o brasileiro deve se comprometer com as vias de participação política, e citou iniciativas populares, como a Lei da Ficha Limpa, que “muito contribuíram para o aperfeiçoamento das instituições democráticas”.

Além de citar a necessidade de maior participação, Cármen falou do número “excessivo” de partidos políticos como outra causa da crise representativa que passa o Brasil. Fator que pode ser aperfeiçoado, na visão de Cármen, a quantidade de siglas faz com que haja uma “atomização de ideias”, fazendo com que o cidadão não se sinta representado de maneira “firme” por nenhum dos partidos, “o que é curioso”, observou a ministra.

Uma das causas desse problema, segundo a magistrada, é a falta de programas partidários objetivos e claros em seus compromissos. “Quem tenha tido a oportunidade de ler os programas partidários vai ver que não tem muita diferença entre o que eles oferecem, quais são seus objetivos, seus principais compromissos”, afirmou Cármen.

A presidente do STF citou o caso do Partido da Mulher Brasileira, que, na ocasião em que obteve o registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não tinha nenhuma mulher na direção.

“Eu lembro aqui o Partido da Mulher Brasileira, que teve seu registro no período que eu estava no TSE. Mas eu não vejo nenhum tipo de representação específica para lembrar esse partido, até porque na direção, pelo menos inicial, não tinha nenhuma mulher. É curioso que um partido que supostamente representaria a mulher não tenha uma mulher. Não que seja só de mulheres, mas se vai representá-las, é preciso que haja pelo menos a fala da mulher para saber porque ela precisa de partido, se é que precisa, com esse nome”, disse Cármen, acentuando que a representatividade é necessária para que o nome não seja apenas “retórica”.

“E nem estou dizendo que seja isso que aconteça porque efetivamente não conheço o partido, estou apenas fazendo uma referência sobre algo que chama a atenção”, completou a ministra.

Cármen concluiu retomando a necessidade de os brasileiros participarem concretamente da política, destacando a constante evolução do estado democrático. “Momento é grave, mas a democracia está posta. Temos de lutar para que a Constituição brasileira seja respeitada por todos nós, e que nós cobremos respeito continuamente”, observou Cármen.

COM A PALAVRA, Suêd Haidar, presidente nacional do Partido da Mulher Brasileira

“A ministra Carmém Lucia, citou em entrevista a esta coluna, que não haviam mulheres no Partido da Mulher Brasileira, no ato de nosso registro.

Me assusta que estejamos entregues hoje a uma Ministra mulher, que julga contra uma causa que também deveria ser dela, a causa da mulher e da representatividade feminina.

Também sou tomada por enorme espanto, ao observar sua ignorância sobre o caso que se dispõe a julgar.

Até aonde a biologia e a anatomia afirmam em seus estudos, eu, Sued Haidar, fundadora do Partido da Mulher Brasileira, sou mulher, desde sempre, desde que nasci. Mãe de 3 filhos e avó de 2 netos, maranhense de nascimento, oriunda de uma comunidade quilombola, mulher brasileira.

O partido que segundo ela, não tem mulher, não só foi fundado por uma, como também contava à época do registro com maioria de mulheres em seu estatuto, e maioria de assinaturas femininas que chancelaram nossa construção partidária em todo o Brasil. Prova cabal disso é que hoje contamos com 55% de filiadas mulheres, muitas das quais migraram dessas assinaturas.

Do total de nossos 25 dirigentes partidários, 16 são mulheres, e como foi amplamente divulgado pela imprensa, nas eleições de 2016, fomos o partido que mais lançou candidaturas femininas proporcionalmente, e também o que mais elegeu mulheres proporcionalmente. Dos nossos 4 prefeitos em 2016, 2 são mulheres, e dos nossos 218 vereadores eleitos, 25% são mulheres, mas que o dobro da representatividade feminina em nosso congresso nacional, e em nossas assembleias legislativas, além de ser mais que o dobro do que percentualmente elegeram os outros partidos tradicionais.

Mais uma vez é a mulher preta e pobre sendo invisibilizada, discriminada e segregada, nisso que chamam democracia brasileira, e é por isso que esse partido, que segundo nossa excelentíssima Ministra, não tem razão de ser, segue lutando, porque nós vivemos em uma sociedade das mais injustas e desiguais do mundo, somos um dos países que mais mata mulheres, negros e trans. É, mais uma vez, por esse motivo que temos sim razão de ser e continuaremos sendo Partido da Mulher Brasileira.”

Suêd Haidar
Presidente Nacional do Partido da Mulher Brasileira