Carcará: pega e mata sem dó

Carcará: pega e mata sem dó

José Renato Nalini*

03 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Maria Bethania eternizou em 1965 a música de João do Vale e José Cândido, metáfora dos tempos então vividos. A conduta dessa espécie de gavião dos trópicos é uma lei natural. O que não é natural é a maldade de quem mata a natureza e mata semelhantes, tudo por cupidez criminosa.

O filme “First Reformed”, da Netflix, oferece material de reflexão para um Brasil que de há muito vem exterminando seu maior patrimônio, a natureza. O filme fala de Dorothy Stang, a freira assassinada em 2005. Quem é que hoje se lembra dela?

Cita outras vítimas do crime de ecocídio na Amazônia. Faltou falar de Chico Mendes. Mas essas mortes estão aí, na História do Brasil, a serem contabilizadas e a serem cobradas pelo Tribunal que não se esquece, que é o da memória coletiva.

No livro “A Arte de Torrar Café”, de Ronaldo Correia de Brito, ele também aborda os horrores dos ruralistas sem consciência, a destruição da natureza e o consumo irresponsável. E Barack Obama, em “Uma Terra Prometida”, conta como se converteu ao mais lúcido ambientalismo, mercê da sensibilidade de suas filhas. Elas cobraram dele que fizesse algo para impedir o extermínio do tigre.

Ele então se lembrou da natureza havaiana, a inclinação de sua mãe pela tutela ambiental e sua percepção, durante bom tempo, de que, para grande parte da humanidade, a preocupação com o meio ambiente não era prioridade. Antes deveria surgir resposta para as necessidades materiais.

Só que a inequívoca realidade das mudanças climáticas o obrigou a enxergar a situação de outra perspectiva. Diz ele: “A cada ano, o prognóstico parecia piorar, à medida que uma nuvem sempre crescente de dióxido de carbono e outros gases que contribuem para o efeito estufa – emitidos por usinas de geração de energia, fábricas, carros, caminhões, aviões, pecuária em escala industrial, desmatamento e todos os outros sinais característicos do crescimento e da modernização – colaborava para novos recordes de temperatura”.

É a ciência que adverte a humanidade há muitas décadas. Já em 1960, Rachel Carson escreveu “Primavera Silenciosa” e foi uma séria advertência sobre as consequências da inação e da continuidade dessa empreitada suicida. Obama percebeu, logo no início de seu governo, que, “à falta de uma vigorosa ação internacional unificada para reduzir as emissões, as temperaturas globais estavam fadadas a aumentar, em poucas décadas, mais dois graus Celsius. A partir desse ponto, o planeta poderia sofrer uma aceleração no degelo das calotas polares, na elevação do nível dos oceanos e no rigor das estações e a partir desse ponto, não havia retorno possível”.

Não ignorava os custos de uma redução das emissões. Mas os custos humanos seriam muito mais gravosos. Pois “as melhores estimativas falavam numa pavorosa combinação de grandes inundações costeiras, secas, incêndios e furacões que desalojariam milhões de pessoas e ultrapassariam a capacidade de reação da maioria dos governos. Isso, por sua vez, aumentaria os riscos de um conflito global e de doenças transmitidas por insetos. Lendo a respeito, visualizei longas caravanas de almas perdidas vagando por uma terra arrasada em busca de áreas cultiváveis, catástrofes reiteradas na escala de um furacão Katrina por todos os continentes, nações insulares tragadas pelo mar”.

Ele imaginou o que seriam suas filhas e seus netos “vivendo num mundo mais duro e mais perigoso, sem muitas daquelas maravilhosas paisagens que, durante minha infância e adolescência, me pareciam inabaláveis”. Daí sua inafastável decisão: “Concluí que, se eu pretendia comandar o mundo livre teria de tomar a mudança climática como uma prioridade de campanha e de presidência”.

Não desconhecia os entraves. Os republicanos eram negacionistas. E a mídia não ajudava. “Os veículos de comunicação conservadores apresentavam o aquecimento global como uma invencionice geradora de desemprego, criado por extremistas amantes de árvores. O grupo das grandes petrolíferas destinou milhões de dólares a uma rede de think tanks e de empresas de relações públicas com vistas a encolher os fatos sobre as mudanças climáticas”. A ponto de um ex-colega dele ter comentado, com imenso pesar: “Somos democratas pró-vida. Logo estaremos extintos!”.

Os Estados Unidos passavam por violenta crise econômica e a opinião pública estava mais preocupada com a sobrevivência. Quando alguém está prestes a perder sua casa, não está nem aí para o painel de energia solar”.

E a do ambientalismo extinção quase veio, com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, o retrocesso do governo que o sucedeu. A recomposição da teia tutelar demandará muito esforço do Presidente Joe Biden. Enquanto aqui, o carcará continua pegando a floresta, matando e queimando. Sem dó. O carcará da ignorância, da ambição, da insensibilidade e de uma incrível postura desumana. Pois é a vida que está em risco, não a subsistência do planeta. Como pequena esfera, insignificante no cosmos, escura, fria e morta.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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