Capitão

Capitão

Cassio Grinberg*

18 de agosto de 2021 | 07h30

Cassio Grinberg. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em um compilado de cenas no YouTube, vemos Carles Puyol, eterno capitão do Barcelona e da seleção espanhola (a Fúria), nos encantando com atitudes que levantam a barra da maturidade.

Em uma delas, ele leva um tapa no rosto e não apenas não reage, como também impede seus companheiros de partirem em sua defesa. Em outra, interrompe uma dança deboche dos colegas em comemoração a um gol, e pede que voltem para o seu lado do campo. Também entrega, ao término de uma final, sua braçadeira de capitão para que Eric Abidal, companheiro de time que superou o câncer por duas vezes, pudesse receber, em vez dele, a taça.

Além da literatura — com capitães inesquecíveis como o Ahab, de Moby Dick — possivelmente o futebol, mais que qualquer outra atividade, é capaz de dar verdadeiro sentido à palavra capitão, movendo-a da armadura da hierarquia para a habilidade da liderança.

Um capitão é alguém capaz de acolher: na Copa de 1994, Dunga praticamente adotou Romário, o chamou para ser colega de quarto e manteve o baixinho longe das aglomerações, com foco na conquista. Um capitão de verdade estuda o adversário e gerencia pela verdade: você nunca o verá tentando modificar um dado para provar determinado ponto, e sim alterar um ponto para melhorar determinado dado.

Um capitão também é solidário. Na cerimônia fúnebre em homenagem ao time da Chapecoense, em 2016, vemos o mesmo Puyol recusar um camarote no “El Clásico” (Real Madrid x Barcelona) e voar várias horas da Europa até o Brasil para estar presente na homenagem, atravessando o campo debaixo de chuva pesada com o terno encharcado para permanecer até o final.

Um capitão é capaz de fazer o time entender que a colheita de um suprimento é dependente de planejamentos bem anteriores: é de Marta, capitã da seleção brasileira feminina, a frase “chore no começo para sorrir no final”.

Hugo De León para alguns, Fernandão para outros, Beckenbauer, Zidane, e mesmo o nosso Capita — todos nós guardamos com muito carinho a imagem de seres humanos interessados em construir.

*Cassio Grinberg, sócio da Grinberg Consulting e autor do livro Desaprenda

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