Capitalismo x capitalismo

Capitalismo x capitalismo

José Renato Nalini*

16 de outubro de 2021 | 11h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

A deficiência governamental em propiciar a uma Nação complexa, heterogênea e carente, uma segura orientação, garantidora de um ambiente em que as pessoas possam explorar suas potencialidades até à plenitude possível, leva a inteligência a propor uma alternativa. Ela surge, hoje, com a proposta ESG, que é cuidar – simultânea e conciliatoriamente – das questões ambientais, sociais e de governança corporativa.

O setor privado, que não tem por si o Erário inesgotável, é que tem condições de implementar reformas estruturais, inteiramente inimagináveis no campo de política partidária eleiçoeira e mesquinha. Para melhor compreender o que está em jogo, é interessante a releitura do livro “Capitalismo x Capitalismo”, de Michel Alert, publicado em Paris pelas Editions du Seuil em 1991 e que Peter Nadas traduziu para as Edições Loyola em 1992.

Vinte anos depois, é interessante resgatar as ideias que inspiraram o autor a examinar o paradoxo do capitalismo. Parte ele da constatação de que o comunismo desmoronou e o capitalismo triunfa em todas as frentes, sem apelação. Embora se alicerce sobre a livre concorrência, o capitalismo não tem concorrência séria. Viceja e predomina.

Porém, no início da década de noventa já se vislumbrava uma luta. Um capitalismo neo-americano, baseado no êxito individual, no lucro financeiro a curto prazo, na mídia e o capitalismo renano, dos países da região do Reno: Alemanha, Suíça, Benelux, Escandinávia e também do Japão. Ele valoriza o êxito coletivo, o consenso, a preocupação com o longo prazo. Coincide com o conceito ESG, que se ampliou exatamente porque o maltrato à natureza recrudesceu e ceifou a promissora carreira do Brasil como protagonista ecológico, lançando-o à condição de “pária ambiental”.

A distinção entre os dois blocos é que a economia americana se move num horizonte mais curto. Há um exagero na busca da lucratividade, com balancetes trimestrais e a constante preocupação com os resultados que eles indicam. Já a economia alemã e a japonesa são geridas em função de objetivos a longo prazo. São horizontes que podem se encontrar além da expectativa de vida dos que tomam decisões. Há uma interessante analogia: o constituinte de 1988, ao elaborar o artigo 225 da Constituição da República, o mais belo dispositivo fundante produzido no século XX, encarregou os viventes, das atuais gerações, a preservarem o ambiente para os nascituros. Para as gerações que ainda não nasceram.

O sistema americano reflete a cultura que ali viceja. Os acionistas entregam a gestão de suas ações a financistas. Estes esforçam-se para rentabilizar ao máximo o valor de seus ativos. Valor que depende da taxa geral de juros – ou da taxa média de capitalização – e dos lucros de cada empresa. Há permanente especulação sobre esses dois valores. A instabilidade vem de uma oscilação emocional de mercados. As bolsas são muito sensíveis. Uma palavra inapropriada de um chefe de executivo desequilibra toda a economia.

O modelo renano difere porque os proprietários conservam suas ações e procuram, naturalmente, enriquecer, mas pelo desenvolvimento das empresas que possuem e não por especulação na bolsa, ou por uma espécie de nomadismo financeiro. Na França, país do autor, a origem agrícola de grande parte da população faz com que a propriedade tenha uma ressonância concreta. A desmaterialização das carteiras de crédito implica em uma desumanização do sistema. O problema central é a propriedade que, originalmente, é e deve continuar a ser individual e com uma função social.

A França cultiva os empresários que se identificam com as empresas, das quais são a alma. E também conhecem os dirigentes mercenários, que hoje estão aqui e amanhã estarão com quem pagar mais. “Aquele que é mercenário, e não pastor, a quem as ovelhas não pertencem, vê chegar o lobo abandona as ovelhas e foge”.

Algo que vai tornar tudo mais claro é a educação do consumidor. Este saberá escolher produtos e serviços dos empreendedores que levam em consideração a realidade ecológica, tentam reduzir a pobreza e a exclusão e têm uma gestão inteligente de suas empresas.

No momento em que o consumidor souber eleger as marcas que não só demonstram preocupação – pois não basta apenas a “simpatia” à causa; é preciso realizar algo de concreto para evidenciar sua adesão – com a proteção da natureza, com os excluídos, os empresários inconsequentes serão gradualmente abandonados.

Veja-se como a educação é a chave suficiente para a resolução de todos os problemas brasileiros. São tantos! Mas uma educação consistente, com professores vocacionados e aptos ao exercício de novas funções, não a de ministrar aulas orais e fazer os alunos treinarem sua memória, será a responsável por uma verdadeira revolução. Um milagre, a se considerar a atual fragilidade da democracia brasileira.

ESG é uma cultura que consolida a opção por uma empresa que não é só uma máquina de gerar lucros para os acionistas. É um fator de renovação da convivência. Lucrará muito mais com isso.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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