Capital mental: pobreza social e da alma

Capital mental: pobreza social e da alma

Pensar só em si deixou de ser apenas egoísmo e virou uma burrice estrutural

Daniela Faertes*

27 de abril de 2021 | 07h30

Daniela Faertes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Cada um no seu quadrado, só na música mesmo. Aliás, enquanto seres sociais, isso nunca existiu, o nosso comportamento individual sempre esteve conectado ao impacto social ou nos que nos cercam e no mundo globalizado e hiperconectado a intensidade desses efeitos só se tornou ainda mais evidente. O individual atinge o público. Sem perder o senso do privado.

Daí a urgência desse olhar, sem perder o senso do privado.

Sua empresa está indo bem, super adaptada ao home office? Sorte a sua, mas essa sorte é temporária também. O capitalismo precisa de consumidores, a máquina voltada apenas para o seu lucro, cedo ou tarde irá impactar irá te impactar. Se não financeiramente, socialmente através da violência urbana ou outras questões. Não é à toa que o termo “capital mental” foi trazido pela primeira vez pelo economista Lok Sang Ho discorrendo sobre a questão de pensar o bem estar individual e da população como um “investimento” que também deixou de ser só um plus na qualidade de vida e virou uma inabilidade com prejuízos altíssimos, inclusive econômicos.

Foi associando essa interconexão que em 2008 o British Office Government for Science, através do departamento de inovação, negócios e habilidades do Reino Unido, criou um estudo para intervenção de práticas públicas sobre Capital Mental.

Capital mental inclui para além de estados de funcionalidade ou atitudes positivas, o treinamento de habilidades, recursos emocionais e cognitivos, “habilidades de vida” para lidar com situações diferentes que vão se apresentando, escolhas de vida, adaptabilidade; resiliência perante ao stress, aprendizagem contínua e formação de hábitos que vão ajudar o indivíduo a longo prazo. Dentre essas habilidades, estão ultrapassar e suportar períodos desafiadores, maior resistência a frustração, crença de que pequenos atos podem de fato, melhorar uma situação, estímulo a auto preservação, empatia, ajuda ao próximo, suportabilidade no cumprimento de regras, o que seria de extrema utilidade na pandemia.

É um “jogo ganha”. O indivíduo com mais bem estar, é mais próspero, tem mais autonomia, produz mais recursos e gasta menos recursos governamentais, tem mais recursos internos e externos para lidar com as pessoas ao seu redor.

A saúde mental entraria como parte desse viés, porque a falta dela acarretaria já em Capital Mental negativo, já que ela, mesmo sendo individual, crucialmente afeta a trajetória da vida da pessoa em todos os sentidos, e tem importância vital para o funcionamento saudável das famílias, comunidade, sociedade. No macro, no público, os gastos consequentes de afastamento de trabalho, intercessão com patologias clínicas, tem uma dimensão gigantesca. Pessoas ansiosas e deprimidas tem comprovadamente menor aderência aos fatores preventivos de inúmeras doenças, vários transtornos psiquiátricos dos pais tem impacto direto no desenvolvimento infantil.

No privado, a queda da produtividade, desmotivação, funcionamento no mínimo.

Na pandemia os setores privados já começaram a olhar para essa questão ainda timidamente, nos setores públicos, o acesso a recursos protetivos de saúde mental que já era ruim, principalmente da população mais desfavorecida, esta infinitamente ilógico e catastrófico face a ferocidade do avanço do mal estar. Luto, desesperança, agressividade e comportamentos autodestrutivos seriam alguns dos principais desafios no momento. Essa preocupação que se começa a ter com bem estar e saúde mental envolve para além de um diagnóstico individual, todo o contexto familiar, que vai desde o nível de impaciência de cuidadores de crianças, que rapidamente segue para agressividade, ao estrago que um alcoolismo pode gerar nos que lidam com isso, passando pelo infarto que um obeso pode ter por não conseguir regular as prescrições de mudança de comportamento alimentar, ou a um filho que tenha que alimentar uma mãe deprimida de cama, se desenvolvendo adulto muito antes da hora. A falta de saúde mental individual é um strike de nível superbowling em quase tudo e todos ao redor, um efeito dominó ou qualquer dessas analogias de estrago interconectado.

O projeto britânico que alguns chamam “o estado da arte” de conexões de diversas especialidades tem intervenções baseadas nos estágios da vida sempre nos dois sentidos; de proporcionar mais bem estar no presente, garantindo mais qualidade de vida no futuro, daí ações que vão desde o cuidado com quem cuida com as de menos transtornos no futuro, começando desde as grávidas, treinamento de habilidades de parentalidade , investimento nas crianças com dificuldades de aprendizagem até como aprimorar a qualidade de vida, autonomia e saúde cerebral proporcionalmente a longevidade física.
-Assim, desde a primeira infância a velhice estariam tentando prevenir possíveis transtornos emocionais, e aumentando a capacidade de autotomia no futuro.

“Mas não tenho energia para investir em mim, que dirá para dar aos outros”. Bom , alguma energia nós temos, porque a sociedade especializou-se com maestria em ser julgadora e crítica com o comportamento alheio em tudo, se posta se não posta, o que come, de que forma trabalha, o que o outro assiste, apoia ou veste. Um gasto enorme de energia que saiu da esfera da interação, da inspiração e do lúdico e virou um excessivo dispêndio de energia que flui diretamente para o mal estar e a não produção de Capital Mental. Uma cultura do comparativo que massacra a auto satisfação e estimula a raiva, revolta, ou seja, nota zero para nós nesse quesito.

Mas já estamos bem distante do “o estado da arte” político e científico em pró disso, o que você no seu micro pode ser? Comprovadamente, o altruísmo, o estímulo as suas capacidades intelectuais, estar conectado com os interesses das pessoas que te cercam, com suas emoções, se movimentar fisicamente são as melhores formas de investimento em capital mental.

Clichê ou não, quando você cuida de si você cuida de algo muito além de você. Quem tem mais bem estar pode gerar mais, cuidar mais e produzir mais. Essa é a lógica. Na lógica do privilegiado, que fique claro que a sua culpa, o seu mal estar pode até te colocar em algum lugar de estar participando do sofrimento alheio, mas ela de fato não ajuda nada e nem ninguém, nem a você mesmo. Transforme esse privilégio em ação. Sempre ouvi que a psicoterapia era algo egocêntrico. Passar uma hora falando de si. Mas ela, assim como outros recursos de bem estar pode ser uma corrente de bem-estar. Pessoas mais reguladas e estruturadas se tornam muito melhores pais, chefes, funcionários, filhos, cidadãos. Trocar o tempo de crítica e julgamento ao outro para meditar ou caminhar em volta da mesa, pode ser um bom começo.

E se você tem preguiça de se cuidar e se proteger por você, faça pelos seus filhos, seus pais, pela economia, pela sua empresa. A sociedade agradece.

*Daniela Faertes, psicóloga. Especialista em terapia cognitiva e mudança de comportamentos prejudiciais. Atuou no Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e, como supervisora, coordenou o núcleo de tabagismo e criou o setor de amor patológico. É uma das pioneiras em trazer para o Brasil os novos modelos e técnicas de Psicoterapia Cognitiva. É membro da American CognitiveTherapyAssociation e professora convidada da PUC-Rio de graduação e pós-graduação. Diretora do Espaço Ciclo no Rio Janeiro, palestrante e supervisora clínica e de Grupos de Estudo em Terapia Cognitivo

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