Capital mental: a riqueza do momento

Capital mental: a riqueza do momento

Daniela Faertes*

10 de setembro de 2020 | 12h25

Daniela Faertes. FOTO: NAT ODENBREIT

O mundo moderno cobra o desenvolvimento de diversas facetas pessoais, como as habilidades de adaptação, a inteligência emocional, o pragmatismo e a consciência social. Todas essas características compõem o chamado “capital mental”. O conceito se refere aos recursos cognitivos e emocionais usados para lidar com as situações que se apresentam frente à circunstâncias desafiadoras. A busca pelo bem-estar emocional e psicológico como principal fonte de riqueza deixou de ser luxo e virou estratégia de sobrevivência.

Quanto mais se tem capital mental, maior a flexibilidade e a eficiência para a utilização desses recursos, que também incluem resiliência em face ao estresse, freios de impulsos e criatividade na resposta aos desafios e novas demandas. O mais interessante desse conceito é que ele é treinável e tem o potencial de ajudar em todos os campos, inclusive o econômico e o social. À medida que alimentamos nossas capacidades de automelhoramento, nos tornamos mais produtivos e mais altruístas.

O capital mental é sobre buscar forças para acionar todas as estratégias pessoais possíveis – e cabíveis – para lidar com os problemas. Quanto mais desenvolvido ele é, maior o grau de eficiência para resolver os desafios cotidianos. Em momentos de crise, ele pode ser usado para adaptação e sobrevivência e, em situações rotineiras, para aumentar a qualidade de vida e o bem-estar. Por isso, no cenário atual – de pandemia, crise econômica e transição para o “novo normal” – o capital mental se intensifica e ganha mais valor. Ele é intrínseco e extrínseco, uma vez que dialoga com a motivação pessoal, sentimentos e pensamentos, mas também é capaz de influenciar o lado de fora, como nossos hábitos e comportamentos sociais.

As transformações constantes do mundo também mudam os valores. Passamos pela busca da riqueza financeira para descobrir que, sem tempo, ela não era tão satisfatória. A partir disso, o tempo – para aproveitar os dias e estar junto de pessoas queridas – passou a ser atrelado ao dinheiro para o alcance da tão desejada qualidade de vida. Porém, nesse contexto, o que vemos é um desespero atrás de recursos emocionais e comportamentais que ajudem a lidar com questões repentinas e adversas.

Como consequência dessa inconstância, a necessidade do capital mental se faz mais notável. Somente a partir dele que ativamos nossa resiliência, administramos nossas emoções, acionamos o nosso autocuidado e buscamos soluções criativas para os novos desafios. Ele se torna uma ‘riqueza’, não só individual, mas também social, estando diretamente ligado à diminuição de comportamentos antissociais, capacidade de resolução de problemas, autoeficácia, otimismo e altruísmo. Hoje, arriscaria dizer que, quanto maior o seu capital mental, mais ‘rico’ você realmente é.

No mundo corporativo e no mercado de investimentos, a conexão entre capital mental e capital financeiro é diretamente proporcional. Empresários e gestores avaliam que não adianta uma pessoa possuir todas as habilidades técnicas para operar, mas não ter controle emocional, ‘freios’ e flexibilização cognitiva (ou seja, ser maleável no que pensa de acordo com as circunstâncias).

A alta capacidade de desenvolvimento do capital mental é um importante diferencial. Ao trabalhar os recursos, o indivíduo se vê hábil e criativo para ativar seu potencial em vários âmbitos: trabalho, autocuidado, relacionamentos, contribuição para a comunidade, responsabilidade no contexto interpessoal e social. Esse desenvolvimento também gera impactos diretos na capacidade adaptativa, nas atitudes, no bem-estar e na qualidade de vida.

*Daniela Faertes, psicóloga, especialista em terapia cognitiva e mudança de comportamentos prejudiciais. Atuou no Serviço de Psiquiatria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e, como supervisora, coordenou o núcleo de tabagismo e criou o setor de amor patológico. Membro da American Cognitive Therapy Association e professora convidada da PUC-Rio de graduação e pós-graduação. Diretora do Espaço Ciclo no Rio Janeiro e palestrante

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