Câncer é um problema de saúde pública que o Brasil precisa encarar

Câncer é um problema de saúde pública que o Brasil precisa encarar

Max Mano*

25 de fevereiro de 2021 | 08h00

Max Mano. FOTO: DIVULGAÇÃO

O progresso científico e o processo de enriquecimento das sociedades observado ao longo do último século resultou em melhorias sanitárias e em saúde pública, com consequente redução na taxa de mortalidade por doenças infectocontagiosas e mesmo cardiovasculares. Tais fenômenos têm levado o câncer a se destacar entre as principais causas de óbito na população. Embora os números assustem – 10 milhões de óbitos somente em 2020, segundo estimativas do GLOBOCAN1 -, podemos também mudar a perspectiva e interpretar que isso só está acontecendo porque as pessoas estão vivendo mais tempo, e morrendo menos por outras causas evitáveis.

Mas o câncer deve, sim, ser considerado o inimigo da vez em termos de saúde pública, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento. Para os que fazem parte dessa segunda categoria existe o desafio adicional da coexistência de doenças infectocontagiosas ainda não erradicadas, da alta incidência/mortalidade por doenças cardiovasculares e gargalos persistentes em medidas de saneamento básico – que se somam ao fardo da incidência explosiva de diagnósticos de câncer e aumento da mortalidade pela doença.

A recente publicação1, liderada pela Agência Internacional de Pesquisas sobre o Câncer (IARC, da sigla em inglês) – entidade intergovernamental que faz parte da Organização Mundial da Saúde (OMS) – e pela Sociedade Norte-Americana de Câncer (ACS), evidencia, entre outras coisas, a crescente disparidade entre os países em termos de qualidade de saúde pública. Os perfis epidemiológicos (ou seja, incidência dos vários tipos de câncer), por exemplo, são drasticamente diferentes entre os países mais ricos e os mais pobres. O câncer de mama e o de próstata, por exemplo, são considerados “doenças de países ricos” (ou seja, a incidência dos mesmos só aumenta com o desenvolvimento socioeconômico), enquanto o de colo de útero e de cavidade oral, por exemplo, são “doenças de países pobres” (ocorrendo o fenômeno oposto). Muitos países se encontram em situações intermediárias, vivenciando um pouco das duas realidades.

Além disso, por causa da ocorrência de diagnósticos em estágio mais avançado e do menor acesso a tratamentos, a letalidade de muitos tipos de câncer (como o de mama e de colo de útero) é maior em países em desenvolvimento do que em desenvolvidos – um fato cruel que foi acertadamente captado pelo estudo GLOBOCAN1.

O fato da incidência de câncer de mama ter, pela primeira vez, “ultrapassado” a de câncer de pulmão pode se dever a uma relativa estabilização na incidência do segundo. Parte disso se deve aos sinais de declínio do tabagismo (ao menos em países desenvolvidos) – já que o cigarro figura como principal agente causador da maioria dos tumores torácicos -, enquanto o contexto de um contínuo aumento global na incidência do câncer de mama se deve a um conjunto de fatores que incluem mudanças no estilo de vida (epidemia de obesidade, uso de hormônios, menarca precoce/menopausa tardia, menor (e mais tardia) paridade/amamentação, maior consumo de álcool, sedentarismo), demográficas (envelhecimento da população) e, possivelmente, uma maior capacidade dos países ricos de fazerem diagnósticos.

Também é importante que se esclareça as diferenças entre as medidas epidemiológicas empregadas. O câncer de mama, por exemplo, possui maior incidência (medida em termos de número de diagnósticos por ano), porém, menor letalidade que o de pulmão. Por isso, apesar dos números, a contribuição do câncer de pulmão para a mortalidade geral continua sendo maior que a do câncer de mama.

A mortalidade associada ao câncer é uma tragédia – tanto do ponto de vista humanitário quanto econômico, já que se reflete em anos de produtividade perdidos e gastos com tratamentos complexos. Em um estudo que realizamos em 2017, por exemplo, 40% das pacientes do sistema público de saúde em idade produtiva ainda não haviam retornado ao mercado de trabalho dois anos após o diagnóstico de câncer de mama2.

Apesar da incidência, em geral, crescente, a mortalidade por muitos tipos de câncer vem diminuindo nos últimos anos; a má notícia é que isso só tem ocorrido, ao menos de maneira consistente, nos países ricos. Infelizmente, o baixo investimento em medidas de prevenção e diagnóstico precoce e a menor oferta de tratamentos oportunos e eficazes podem condenar os países em desenvolvimento a anos de atraso nas políticas de combate ao câncer, em relação aos seus pares mais afortunados.

Referências:

Hyuna Sung, Jacques Ferlay, Rebecca L, et al. Global cancer statistics 2020: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries. .
Luciana C. G. Landeiro, Debora M. Gagliato, Angelo B. Fêde, Natalia M. Fraile, Rossana M. Lopez, Leonardo G. da Fonseca, Vanessa Petry, Laura Testa, Paulo M. Hoff, Max S. Mano. Return to work after breast cancer diagnosis: An observational prospective study in Brazil. Cancer. 2018 Dec 15;124(24):4700-4710. doi: 10.1002/cncr.31735.

*Max Mano é oncologista e líder do grupo de mama do Grupo Oncoclínicas

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.