Caminhos trilhados por uma tetra

Caminhos trilhados por uma tetra

Mara Gabrilli*

04 Setembro 2018 | 08h00

Mara Gabrilli. FOTO: ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO

Seria a vida feita de escolhas? Eu prefiro dizer que a minha foi feita por caminhos. Alguns já estavam construídos, outros eu tive de abrir para trilhar. Desde que sofri o acidente de carro que me deixou tetraplégica aos 26 anos, venho cadeirando por caminhos diferentes. Dia desses, relembrando minha trajetória política, comecei a pensar nas barreiras que nos deparamos para chegar aqui hoje. Digo nós porque eu sou um exemplo prático de que sozinho não se chega a lugar algum. Para escrever esse texto, inclusive, foi preciso uma mãozinha. E para conquistar esse espaço na mídia foi necessário derrubar muitas barreiras – as de atitude, principalmente.

Em 2005, quando estava à frente da secretaria municipal da pessoa com deficiência e mobilidade reduzida de São Paulo (SMPED), primeira pasta do país com essa temática criada na gestão do então prefeito José Serra, passamos a fazer uma série de vistorias junto à CPA – Comissão Permanente de Acessibilidade – para reformar pontos importantes da cidade. À época, palavras como acessibilidade e inclusão eram pouco faladas no Brasil e a SMPED tinha uma função primordialmente didática: ensinar a importância da acessibilidade em todas as outras secretarias.

Aos poucos, caminhos foram se abrindo para que nós conseguíssemos desenvolver dezenas de projetos em São Paulo em diversas áreas de infraestrutura urbana, educação, saúde, transporte, cultura, lazer, emprego, etc. Entre outras ações, esse trabalho resultou no aumento da frota de ônibus adaptados da cidade, que de 300 saltou para 3 mil, além da reforma de mais de 400 quilômetros de calçadas, inclusive as da Avenida Paulista, que se tornou modelo de acessibilidade na América Latina.

Lembro-me que a Casa do Povo, a Câmara Municipal de São Paulo, não tinha acessibilidade e nós conseguimos reformar não só a Mesa Diretora do Plenário, para que qualquer cidadão pudesse discursar, como todos os outros espaços do Palácio Anchieta. Dois anos depois, quando assumi o cargo de vereadora, a Câmara já estava acessível para cegos, cadeirantes, idosos, anões…enfim, para todos os cidadãos que votam, pagam impostos e têm o direito de reivindicar direitos e acompanhar o trabalho de seu representantes.

Nessa mesma época, passamos a apresentar na Rádio Eldorado um programa chamado Derrubando Barreiras – Acesso Para Todos, atração de rádio que pautava a temática da diversidade humana e suas nuances. Foram cinco anos de uma programação semanal que mudou o olhar para muitas questões relacionadas à acessibilidade. Com a minha voz, meu maior instrumento de trabalho, conseguimos levar muita gente aguerrida, com histórias inspiradoras e de referência no país.

Tempos depois, fomos derrubar barreiras em Brasília, quando me tornei a primeira deputada tetraplégica do país. A Câmara não era acessível e nós entramos em um processo de reforma gigantesco: plenário, Mesa Diretora e o próprio sistema de voto dos parlamentares, que ganhou uma tecnologia onde pessoas com algum tipo de restrição pode votar só com o movimento do rosto. Além do Ulysses Guimarães, que foi todo reformado, mais 16 plenários de comissões estão hoje acessíveis para todo e qualquer cidadão. Isso é democratizar o acesso na Casa onde foi aprovado a Lei da Acessibilidade (Lei 10.098 de 2000). E colocar em prática o direito de exercer democracia de todo mundo.

Quando relatamos a Lei Brasileira de Inclusão, por exemplo, que já está em vigor há dois anos no Brasil, fizemos questão de traduzir todo o texto para a Língua Brasileira de Sinais, e também criamos uma plataforma para o cidadão cego sugerir mudanças e até fazer alterações no texto do projeto. Foi a primeira vez que a Câmara dos Deputados promoveu uma consulta pública onde todos os brasileiros puderam opinar. Foi mais um caminho aberto ali, liderado por aqueles que enfrentam inúmeras barreiras até para sair de casa.

Trabalhar para abrir caminhos em todas as esferas públicas é ter coerência e respeito à diversidade do povo brasileiro. É o que pretendemos levar agora ao Senado Federal, que há pouco tempo atrás sequer tinha banheiro para mulheres próximo ao acesso do plenário. Foram mais de 55 anos para que o Senado construísse um banheiro para as senadoras. Até a última reunião dos parlamentares no ano passado, as senadoras tinham de sair do plenário e usar o banheiro do restaurante ao lado porque a única opção era o banheiro masculino, construído em 1960. Isso nos leva a pensar que além de acessibilidade no Senado, tá faltando também mulheres.

Este ano, concluímos nosso segundo mandato com uma Câmara dos Deputados plenamente acessível. E carregamos também a conquista de uma eleição inédita para representar nosso país em um Comitê da ONU, onde atuarei nos próximos quatro anos pela defesa dos direitos de todos no mundo. O desafio agora é acessibilizar a mesa diretora da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, onde o púlpito, em seu último nível, em que o secretario faz seu pronunciamento maior, não é acessível para cadeirantes. Vamos abrir caminhos agora nesse ponto mais alto, onde cadeirantes também devem e merecem ter acesso.

Olhar para tudo isso e ver o quanto transformamos – tanto nas cidades quanto na vida das pessoas – é o que dignifica a razão por um dia eu ter quebrado meu pescoço: eu precisava reinventar meu caminho, para fazer dele a trilha para outras pessoas.

*Mara Gabrilli, deputada federal (PSDB-SP), publicitária, psicóloga, foi secretária da Pessoa com Deficiência da capital paulista e vereadora por São Paulo. Em 1997, após sofrer um acidente de carro que a deixou tetraplégica, fundou uma ONG para apoiar o paradesporto, fomentar pesquisas cientificas e promover a inclusão social em comunidades carentes

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