Caminhos para o futuro já começaram a ser percorridos

Caminhos para o futuro já começaram a ser percorridos

Luiz Marcatti*

06 de setembro de 2020 | 05h00

Luiz Marcatti. FOTO: DIVULGAÇÃO

Estamos chegando a meio ano desta vivência de uma pandemia que tomou o mundo em poucos meses. Muito ainda discutiremos sobre como manter a proteção dos indivíduos e das sociedades, sempre olhando com uma incrível esperança no sucesso da produção, em tempo recorde, de vacinas que possam nos livrar da Covid-19. Enquanto isso, no mundo empresarial, ainda temos um desequilíbrio de desempenho e atividades, uma vez que nem todos os setores da economia retomaram suas atividades em ritmo normal. Pelos diversos setores onde atuo, como conselheiro e como consultor, temos debates e encaminhamentos muito distintos sobre o que fazer, como agir.

Alguns setores ainda se ressentem do impacto da brusca parada, além de não terem clareza sobre o cenário de curto prazo, que pode ser decisivo para sua sobrevivência. Mesmo tendo colocado toda a criatividade e inovação em ofertar e atender seus clientes, algumas soluções nascidas nestes tempos serviram apenas para manter a base da sua operação, mas agora têm a preocupação de retomar os custos originais de sua atividade.

Por outro lado, existem os negócios que prosperaram nos tempos de isolamento social, muitos até com grande surpresa, pois a demanda apareceu, sem que fosse feito um plano específico sobre isso, apenas aconteceu. Quem estava bem preparado para um plano de crescimento neste ano, caso tivesse sido normal, conseguiu surfar uma onda gigante em termos de oportunidades, tanto para o seu modelo tradicional, quanto para novos formatos de atuação, conforme foram surgindo novas características dos mercados.

As empresas que tiveram desempenho positivo neste período, já estão percebendo as inúmeras oportunidades de crescimento que se apresentam e chegam por diversos meios e em diferentes formatos. Qualquer que seja o interesse do investimento, cabem algumas preocupações que não são triviais.

Fusão ou aquisição – este processo pode ser endereçado com concorrentes, para uma rápida ampliação do market share, ou por empresas que trarão produtos e serviços complementares. Do ponto de vista empresarial, dependerá muito do modelo societário que surgiu, qual a posição de cada sócio e como será exercido o poder de deliberar no âmbito da assembleia geral. Já na dimensão operacional, há a necessidade de colocar as duas operações para funcionarem em um único modelo de gestão. Neste momento as diferenças culturais afloram, podendo significar barreiras para transformação e alinhamento das atividades, assim como trazer dificuldades nos processos de monitoramento e avaliação de desempenho. É muito comum imaginar que ocorrerão ganhos de sinergia, tanto em custos como produtividade, mas a realidade pode se mostrar menos exequível.

Receber aporte de um private equity traz a possibilidade de se acelerar o processo de crescimento, muitas vezes limitado ao apetite dos sócios, ou à viabilidade de alavancagem do negócio. Por outro lado, de imediato, ocorrerá uma mudança substancial no âmbito da alta administração. O jeito tradicional dos donos tomarem e encaminharem decisões à operação, bem como o monitoramento dos resultados tende a sofrer mudanças profundas, uma vez que os investidores também aportam novas práticas de governança corporativa, com foco na avaliação de indicadores de desempenho operacional, econômico e financeiro, em bases bastante técnicas, não raro, conflitando com o jeito como os sócios-fundadores sempre lidaram, interna ou externamente. Se o fator motivador para trazer investidores para a empresa for a implantação de um projeto de crescimento orgânico, essas mudanças virão rapidamente à tona. Caso a alternativa passe por consolidação de mercado, com a aquisição de uma outra empresa, acrescentam-se os desafios citados anteriormente. Além do que, o investidor sempre tem um horizonte de tempo para um processo de saída da sociedade, o que deve estar claro e contemplado nos planos de crescimento e rentabilização da Companhia.

Abrir o capital na Bolsa – alimentado pela queda na taxa de juros, volta a ganhar espaço nas análises de crescimento, via financiamento de projetos por aportes de acionistas que comprarão participações maiores ou menores, dependendo da atratividade do negócio e das expectativas de resultado futuro. Este é o caminho que exige mudanças mais profundas nas empresas, seja pela estrutura mais sofisticada de governança e gestão, como também dos sistemas de informações que reportarão ao mercado, e seus analistas, a performance e o encaminhamento futuro da empresa.

Tornar uma empresa pública exige um grande desprendimento por parte dos sócios-fundadores, uma vez que essas referidas análises são frias e baseadas em números e perspectivas de mercado, o que nem sempre agradarão aos ouvidos de quem olha e cuida da empresa como um ente da família.

Todas as escolhas podem ser boas ou ruins, trazer facilidades ou obstáculos, depende sempre da maneira como a decisão foi construída e da forma como lidamos com o que se segue ao caminho escolhido.

Qualquer que seja o caminho escolhido, uma recomendação aos empresários e administradores é a de começar, imediatamente, um trabalho de melhoria das práticas de governança e gestão, alinhada ao futuro que se busca alcançar.

Cada uma das alternativas apresentadas traz muitas possibilidades de ganhos, mas todos vêm também carregados de riscos, inerentes aos processos de implantação e consolidação da escolha, e podem custar muito caro às empresas que não se prepararam adequadamente para viver esta nova realidade. 

*Luiz Marcatti é presidente da MESA Corporate Governance e membro de Conselhos de Administração

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