Caminho da retomada é longo

Caminho da retomada é longo

José Pena*

22 de junho de 2020 | 14h30

José Pena. FOTO: DIVULGAÇÃO

Abril de 2020 provavelmente ficará marcado como o pior mês para a atividade econômica global desde pelo menos a Segunda Guerra Mundial. Indústria, varejo e outros serviços experimentaram naquele mês um colapso significativo, na esteira das medidas adotadas ao redor do mundo para conter o avanço da covid-19. Os números só não foram ainda mais desastrosos porque a China, então, já começava a mostrar alguma recuperação (no caso chinês, o ápice do impacto econômico da pandemia ocorreu em fevereiro).

Nas últimas semanas, indicadores referentes a maio começaram a ser divulgados e dois deles, em particular, chamaram a atenção e despertaram um maior otimismo quanto à retomada econômica ao longo dos próximos meses. O primeiro deles, divulgado no início deste mês, referente ao mercado de trabalho nos Estados Unidos (EUA), mostrou um saldo líquido de contratações, contrariamente à expectativa dominante de que haveria nova rodada de demissões. O segundo, conhecido no início desta semana, mostrou que as vendas do varejo nos EUA exibiram uma taxa de crescimento sobre o nível de abril duas vezes maior que o esperado.

Embora inegavelmente positivo, este último resultado deve ser visto com alguns grãos de sal. Em função dos diversos programas emergenciais implantados para mitigar os efeitos econômicos da covid-19, a renda total disponível para o consumidor norte-americano teve em abril um salto poucas vezes visto em um único mês. Na prática, para uma parcela significativa da população dos EUA, esses programas representaram um aumento importante da renda em comparação com os valores recebidos normalmente, e que ao longo do mês seguinte (maio) foram em larga medida canalizados para o consumo de bens e serviços.

Obviamente que a ideia original dessas medidas era exatamente a de impedir quedas maiores e mais prolongadas da atividade, preservando assim o máximo de empregos e da própria solvência das empresas. Mas não se pode esquecer que elas são emergenciais e, como tal, temporárias. O que significa dizer que parte dessa melhora observada nos dados de maio não é recorrente, sem falar que a base bastante fraca de comparação (abril) favorece saltos expressivos nos indicadores de maio.

Na reunião desta semana, o Copom reduziu a taxa Selic em 0,75 ponto percentual para 2,25%, medida amplamente esperada pelos agentes de mercado. A expectativa, na realidade, se concentrava na sinalização dos próximos passos da política monetária. Embora tivesse sugerido na reunião anterior que este seria o último movimento deste atual ciclo de afrouxamento monetário, agora o Copom claramente deixou a porta aberta para pelo menos mais uma redução da taxa básica de juros, ainda em que em magnitude inferior às efetivadas nas duas reuniões anteriores.

Com isso, mantemos nosso cenário em que a Selic deverá cair para o patamar de 2%, onde deverá permanecer por um período bastante prolongado, diante da enorme ociosidade da economia doméstica, o que por sua vez ajuda a manter a inflação em patamares inferiores à meta perseguida pelo Banco Central. Nesse sentido, o IPCA-15 de junho, a ser conhecido nesta próxima quinta-feira (25) e, para o qual esperamos uma deflação de 0,09%, deverá reforçar esse quadro.

*José Pena é economista-chefe da Porto Seguro Investimento

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