Câmbio, responde?

Câmbio, responde?

João Rogério Alves Filho*

20 de abril de 2021 | 06h15

João Rogério Alves Filho. FOTO: CARIUS PONTES

Em março, o COPOM reverteu uma trajetória de mais de quatro anos de queda em nossa taxa de juros primários. Entendeu o Comitê que pequenas elevações sucessivas na SELIC trarão algum alívio em nosso processo inflacionário, a essa altura, já preocupante.

A modulação da taxa de juros, uma das duas clássicas ferramentas da política monetária, é fundamentada no desestímulo ou fomento ao consumo e investimento, uma vez ser essa a razão pela qual alguém pode estar mais propenso a poupar, ou mesmo, um investimento pode se mostrar mais ou menos viável a depender de quanto custará o recurso que o financiará.

Nesses dois vieses, podemos afirmar que quanto ao consumo, o que mais precisamos é de seu fomento e não de seu desestímulo. O emprego e a subutilização de nossa capacidade instalada são provas concretas disso. Já quanto ao investimento, não resta a menor dúvida que o momento de nossa atividade econômica está longe de demandar inibição aos agentes investidores. Concluímos assim que tal medida, a elevação da taxa de juros primários, é recessiva.

Quanto ao aumento continuado de nosso nível geral de preços, é óbvio que o mesmo não se deu por aspectos de explosão de demanda (consumo e investimento), e sim pela explosão dos custos (petróleo e commodities), totalmente dependentes do dólar americano. Nesse viés, podemos perceber que essa elevação de juros é inócua.

O Ministro da Economia, em 08 de abril passado, que estima nosso câmbio de equilíbrio atual em R$ 4,50. Com nossa taxa de câmbio oscilando em torno de R$ 5,70, podemos entender que deveríamos ter um câmbio 21% mais baixo do que atualmente nos deparamos. A depreciação exagerada de nossa moeda, obviamente, se deve ao total disparate de nossas políticas sanitárias, econômicas e de nossa insegurança política e institucional. O risco soberano institucionalizado em nossa país tem preço e é cobrado primariamente na taxa de câmbio. O aumento de dois ou três pontos ao ano na remuneração a investidores estrangeiros que se disponham a comprar títulos de nossa dívida pública é ineficaz, sendo essa a oscilação cambial que podemos frequentemente observar em dois ou três dias úteis no presente momento.  Por esse viés, podemos entender que a solução da elevação da taxa de juros é cega quanto aos reais motivos de nossa preocupante retomada inflacionária.

Por todo o acima exposto é que afirmo que a elevação da taxa de juros primários em nossa economia, visando o combate de nossa retomada inflacionária, é recessiva, inócua e cega.

*João Rogério Alves Filho é economista e sócio-diretor da PPK Consultoria

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.